Como a adolescência molda nossa personalidade

A adolescência é uma fase de transformações rápidas. Não é à toa que a neurocientista cognitiva britânica Sarah-Jayne Blakemore, especialista em cérebro adolescente, descreveu recentemente o desafio dessa etapa do desenvolvimento humano como “uma tempestade perfeita”, graças ao aumento súbito e simultâneo de “alterações hormonais, neurais, sociais e de pressões da vida”.

À lista, ela poderia perfeitamente ter acrescentado “mudanças de personalidade”.

Ao longo da infância, nossa personalidade e temperamento se consolidam à medida que adotamos um modo de pensar, agir e sentir mais consistente. A solidificação da personalidade volta a ser reforçada novamente no fim da adolescência até a chegada da idade adulta.

Mas, na fase intermediária – ou seja, na adolescência -, essa tendência é interrompida. O caleidoscópio da personalidade é chacoalhado, e onde as peças vão se posicionar é profundamente importante. Estudos de longo prazo mostram que características que surgem durante a adolescência anteveem uma série de acontecimentos no decorrer da vida, incluindo sucesso acadêmico e risco de desemprego.

A mudança de personalidade não é exclusiva da adolescência. Se você diminuir um pouco o zoom e olhar para da vida toda, vai observar que há, em geral, um aumento nos traços de personalidade desejáveis – menos angústia, maior autocontrole, cabeça menos fechada, mais simpatia.

Os psicólogos chamam isso de “princípio da maturidade”. Se você tem 20 e poucos anos, é inseguro e ansioso, pode ser reconfortante saber que, pelo padrão, ao envelhecer, você vai ficar mais tranquilo.

Tanto os pais quanto os filhos concordam que ocorrem mudanças nessa fase. Mas, surpreendentemente, as alterações percebidas podem depender do ponto de vista. É o que mostrou um estudo de 2017 realizado com mais de 2,7 mil adolescentes alemães. Os jovens avaliaram a própria personalidade em dois momentos, aos 11 e aos 14 anos. Em ambas as ocasiões, os pais também analisaram a personalidade dos filhos.

Algumas diferenças foram reveladas: os adolescentes notaram, por exemplo, uma redução no grau de amabilidade, mas os pais consideravam esse declínio muito mais acentuado. Além disso, os jovens se achavam cada vez mais extrovertidos, enquanto os pais acreditavam que eles estavam mais introvertidos.

“Os pais, de uma maneira geral, observaram que os filhos estavam menos agradáveis”, interpretaram os pesquisadores. E, ao mesmo tempo, classificaram a redução da conscienciosidade dos adolescentes com menos rigor que os jovens.

A divergência pode parecer a princípio contraditória. Mas talvez possa ser explicada pelas grandes mudanças no relacionamento entre pais e filhos, desencadeadas pela demanda crescente dos adolescentes por autonomia e privacidade. Os pesquisadores ressaltam ainda que eles podem estar usando parâmetros distintos. Enquanto os pais avaliam as características dos filhos em relação a um adulto, os jovens se comparam aos colegas.

O resultado vai na mesma linha de vários outros estudos, que também identificaram um padrão de redução transitória das características vantajosas (especialmente amabilidade e autodisciplina) no início da puberdade. A visão geral da adolescência como uma “ruptura” temporária da personalidade parece, portanto, correta. Além disso, na pesquisa alemã, pais e filhos concordaram que a amabilidade tinha diminuído, apenas discordaram sobre quanto.

Naturalmente, esses são estudos de longo prazo que analisam as mudanças de personalidade comuns entre adolescentes. Esse tipo de dado no âmbito de grupos mascara a quantidade de variação individual que existe de um adolescente para outro. Na verdade, estamos apenas começando a entender a intrincada mistura de fatores genéticos e ambientais que contribuem para os padrões individuais de mudança de personalidade.

O cérebro adolescente é um bom ponto de partida. Nas últimas duas décadas, Sarah-Jayne Blakemore e outros especialistas mostraram como o desenvolvimento dos jovens é marcado por importantes mudanças no cérebro, incluindo uma “poda” do excesso de massa cinzenta, associada à aprendizagem.

Esse fator poderia contribuir para os padrões de mudança da personalidade na adolescência, de acordo com um estudo norueguês de 2018, baseado em imagens cerebrais. Os pesquisadores examinaram os cérebros de dezenas de jovens duas vezes, ao longo de um período de dois anos e meio, e pediram que os pais avaliassem as personalidades dos filhos em ambas as ocasiões.

Eles descobriram que quem tinha pontuações mais altas em termos de conscienciosidade apresentava uma taxa maior de afinamento da área cortical em várias regiões do cérebro – sinal de uma “poda” mais eficiente da massa cinzenta e maior maturidade. O mesmo foi observado em relação às avaliações mais altas no quesito estabilidade emocional.

Fonte: G1 (g1.globo.com/ciencia-e-saude)

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