Guilherme Arantes mostra em luminoso show solo no Rio que a ‘viagem do compositor’ continua

Guilherme Arantes abriu o show solo que apresentou no Rio de Janeiro (RJ) na noite de sexta-feira, 5 de outubro, com tema instrumental ao qual se seguiu Puro sangue (Libelo do perdão), a inspirada canção black que compôs para Gal Costa gravar no luminoso recém-lançado 40º álbum da cantora, A pele do futuro (2018).

Ressaltando a “grande glória” de ter sido gravado por Gal, o cantor, compositor e pianista paulista não tinha incluído Puro sangue no roteiro que esboçara horas antes para a apresentação em que dividiu o palco da casa Vivo Rio somente com dois pianos, um Yamaha acústico e e um piano elétrico.

Talvez o cantor tenha decidido incluir essa música já no início do roteiro, e cantado na sequência a recente balada apaixonada que compôs com Paulo Miklos, Estou pronto (2017), para mostrar ao público que a “viagem de compositor” – como o próprio Arantes caracterizou em cena esse show solo – ainda está longe de chegar ao fim.

Guilherme Arantes lembrou músicas lançadas nas vozes do MPB4 e Fafá de Belém — Foto: Divulgação Vivo Rio / Ricardo Nunes

Guilherme Arantes lembrou músicas lançadas nas vozes do MPB4 e Fafá de Belém — Foto: Divulgação Vivo Rio / Ricardo Nunes

Arantes domina o idioma da música pop feita com melodia. É um dos maiores compositores do mundo nessa seara. Tivesse nascido na Inglaterra ou nos Estados Unidos, provavelmente teria o prestígio e a fama planetária de Elton John – a quem foi insistentemente comparado na década de 1970, aliás – por conta da obra que o Brasil canta junto desde 1976.

No show, Arantes sintetizou com orgulho, explicitado nos comentários feitos sobre cada música, essa obra que já soma 42 anos. Ou 50, se levado em conta que a origem da criação de canções como Meu mundo e nada mais (1976) remonta ao fim dos anos 1960, mais precisamente entre 1968 e 1969.

Ao salpicar saborosos detalhes sobre a gênese de cada canção, Arantes aproveitou para ressaltar que, mais do que Elton John, o cantor e compositor Gilbert O’ Sullivan é uma das grandes influências desse Midas nacional da indústria pop que absorveu influências da inspiração celta embutida na obra do colega irlandês. Para comprovar tal tese, cantarolouNothing rimed (1970), um dos sucessos de O’ Sullivan.

Guilherme Arantes cantarolou música do compositor irlandês Gilbert O' Sullivan — Foto: Divulgação Vivo Rio / Ricardo Nunes

Guilherme Arantes cantarolou música do compositor irlandês Gilbert O’ Sullivan — Foto: Divulgação Vivo Rio / Ricardo Nunes

Para além de qualquer influência, Arantes já se tornou, ele mesmo, referência para quem faz música pop no Brasil. No palco do Vivo Rio, entre falas que alongaram a duração de apresentação que totalizou cerca de três horas, o compositor recordou todos os hits, seguindo o que o próprio Arantes conceituou em cena como “roteiro obrigatório”, habitualmente finalizado com a apoteose festiva de Lindo balão azul(1982).

Contudo, o cantor também extrapolou esse roteiro usual, fazendo a alegria de admiradores mais atentos da obra ao dar voz à balada de clima veneziano Baile de máscaras (1977), ao reviver o prelúdio de ar barrocoO amor nascer (1982), ao mergulhar nas águas calmas de Oceano (1986) – beleza que teve a mesma inspiração carioca de Voo (1989), música também lembrada no show – e ao tirar do baú de joias Ready for love(1992), canção em inglês que fez com Nelson Motta com a intenção de a balada ser gravada pela cantora britânica Lisa Stansfield.

Outras surpresas do roteiro não obrigatório foram Aconteceu você – hit que Arantes deu para Fafá de Belém em 1983 e que reviveu em clima de sambossa que tirou o brilho pop da composição – e Labirinto, outra música de 1983, lançada pelo grupo MPB4 e somente registrada por Arantes neste ano de 2018 no percurso retrospectivo do DVD Uma viajante alma paulistana.

Guilherme Arantes falou sobre as músicas que cantou no show — Foto: Divulgação Vivo Rio / Ricardo Nunes

Guilherme Arantes falou sobre as músicas que cantou no show — Foto: Divulgação Vivo Rio / Ricardo Nunes

Os lados B deram valor adicional ao show. Contudo, o público se esbaldou mesmo foi com os lados A. Quem haveria de resistir ao clima solar de Loucas horas (1986)? Ou à beleza melódica das baladas Um dia, um adeus (1987) e Sob o efeito de um olhar (1991)? Ou à textura prog-espacial de Êxtase (1979)? Ou ao otimismo contagiante de O melhor vai começar (1982)? Ou ao tom épico de Raça de heróis (1989)? Ou ainda à melodia de Muito diferente (1989)?

Guilherme Arantes sempre foi e continua sendo um excelente compositor. Nem sempre o mercado fonográfico lhe deu a devida atenção. A balada Lágrima de uma mulher (1993), por exemplo, poderia ter se imposto há 25 anos como um dos grandes hits de Arantes se a partir dos anos 1990 o mercado não tivesse ficado refratário para o cantor por conta da dominação de gêneros como axé music e o pagode genérico.

Felizmente, o tempo se encarrega de colocar cada artista no devido lugar. Aos 65 anos, Guilherme Arantes já está entronizado como um rei do pop brasileiro ao lado do igualmente nobre Lulu Santos. Só que, como sinalizaram a música gravada por Gal Costa no cintilante álbum A pele do futuro e o roteiro não obrigatório do show, a “viagem” desse compositor ainda continua, para deleite da tripulação. (Cotação: * * * *)

Guilherme Arantes tocou dois pianos em apresentação de cerca de três horas — Foto: Divulgação Vivo Rio / Ricardo Nunes

Guilherme Arantes tocou dois pianos em apresentação de cerca de três horas — Foto: Divulgação Vivo Rio / Ricardo Nunes

Roteiro do show de Guilherme Arantes na casa Vivo Rio, escrito pelo próprio artista — Foto: Reprodução

Roteiro do show de Guilherme Arantes na casa Vivo Rio, escrito pelo próprio artista — Foto: Reprodução.

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