Imunização de crianças em queda: por que os pais deixam de vacinar os filhos? Veja perguntas e respostas

Os baixos índices de imunização de crianças no Brasil acenderam o alerta em especialistas. Mas afinal, quais os motivos por trás da decisão de pais que não vacinaram os filhos? Para Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, um dos motivos que explicam o menor índice em 16 anos de cobertura de vacinação em crianças menores de um ano é o fato de que as vacinas estão culturalmente vinculadas à percepção de risco da doença. Quando se trata de doenças erradicadas, a população tem mais dificuldade de enxergar seus perigos.

“As vacinas acabam sendo ‘vítimas de seu próprio sucesso’. A cultura do ser humano é de se vacinar quando há um risco iminente, quando ele não enxerga esse risco, não trata com prioridade, o que é um equívoco”

Kfouri cita como exemplo os dados de cobertura da vacina contra a gripe, em 2016, que em três semanas atingiu a meta de 80% de cobertura, quando houve um surto da doença. “Hoje isso não seria possível nem em três meses.”

Para a pediatra Ana Escobar, consultora do programa “Bem Estar”, muitos pais mais jovens ficaram muito longe da realidade de ter uma criança com poliomelite ou sarampo, por exemplo.

“Não conhecem e nem nunca viram crianças com estas doenças. Por isso, não há um estímulo vigoroso para que compareçam aos postos de saúde com a frequência necessária para vacinar seus filhos. Há pouca informação na mídia sobre a gravidade destas doenças, que de fato diminuíram sensivelmente sua incidência”, analisa.

Na campanha de vacinação contra a gripe de 2018, as crianças de seis meses a cinco anos e as gestantes registram o menor índice de vacinação contra a gripe. A três dias do fim da campanha, apenas 65,92% das crianças tinham sido vacinadas.

Segundo dados do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde, nos últimos dois anos a meta de ter 95% da população-alvo com menos de um ano vacinada não foi alcançada.

Dentre as vacinas do calendário infantil, apenas a BCG teve índices satisfatórios em 2016 e 2017. A vacina Tetra Viral, que previne o sarampo, caxumba, rubeóla e varicela, apresenta o menor índice de cobertura: 70,69% em 2017. Seguido da vacina de Rotavírus Humano que ficou 20% abaixo da meta.

Mas por que os pais deixam de vacinar os filhos?

Para Kfouri um impeditivo para a vacinação é o fato de muitas vezes a população e até os profissionais da área da saúde não conhecem a doença para qual precisam se imunizar e consequentemente não entendem seus riscos.

“Doenças como rubéola, sarampo e poliomelite foram erradicadas, e não são mais vistas, dificultando que as pessoas enxerguem o risco. Muitas vezes até profissionais da área de saúde deixam de fazer recomendações mais enfáticas [sobre a importância de se imunizar] também por esta falta de percepção.”

Há outros motivos para que as pessoas deixem de se vacinar?

Além da percepção do risco da doença, fatores como o horário de funcionamento dos postos de saúde, além da falta sazonal de uma determinada vacina podem ser motivos para a falta de vacinação, segundo Kfouri. Ele lembra que os postos funcionam em horário comercial e nem sempre atendem as necessidades das famílias, cujo os pais trabalham fora.

“Os horários nem sempre são os mais adequados, é preciso repensar isso.”

Ana Escobar lembra ainda que há uma diminuição da frequência de campanhas de vacinação para doenças erradicadas: “As campanhas de vacinação, feitas com grande frequência na época de erradicação da poliomielite, com intensa propaganda nos meios de comunicação – os mais velhos ainda se lembram do Zé Gotinha- estimulava o comparecimento aos postos. Com a erradicação da Polio e a diminuição da frequência das campanhas, o estímulo para se vacinar diminuiu também”.

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