México debate caminhos futuros do Nafta diante de um imprevisível Trump

Às vésperas das eleições, a relação com os Estados Unidos é uma das principais preocupações do México devido à complexa modernização do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) e aos comentários depreciativos do presidente americano, Donald Trump, que ameaça romper um acordo de enorme importância para o país.

“A negociação não ajuda a estabilidade da economia mexicana. Mas provavelmente a negociação em si não é um fenômeno tão grave como o antimexicanismo do presidente dos EUA”, disse à Agência Efe o diretor-geral adjunto do Instituto Mexicano para a Competitividade (IMCO), Manuel Molano.

A renegociação do Nafta, um pacto firmado entre México, EUA e Canadá em 1994, foi iniciada em agosto do ano passado. Trump considera o acordo como “terrível” por prejudicar a indústria americana e os empregos no país.

Apesar de várias rodadas de negociação e de reuniões de alto nível, o processo de modernização parece estancado, sem evolução há várias semanas, o que gera impactos sobre a situação econômica do México, principalmente em indicadores como o câmbio.

“Na era Trump, o Nafta tem se tornado um tema mais complexo, embora no fim das contas a integração já seja um fato. Mas colocar empecilhos legais cria muita incerteza nos investidores, e isto nos traz muita volatilidade”, explicou o professor Héctor Villarreal, da Escola de Governo e Transformação Pública Tecnológica de Monterrey.

A economia do México cresceu 2% em 2017, um avanço estável, mas menor que os 2,9% de 2016. No primeiro trimestre de 2018, o Produto Interno Bruto (PIB) registrou uma alta menor, de 1,3%.

Embora o investimento estrangeiro direto (IED) tenha crescido 11% em 2017, para até US$ 29,6 bilhões, analistas afirmam que a renegociação adiou a tomada de decisões empresariais. O clima é de incerteza.

O câmbio foi uma das principais vítimas. Sobretudo nas últimas semanas, quando o dólar chegou a valer 20 pesos mexicanos, um valor ao qual não chegava desde o início de 2017.

A guerra comercial promovida por Donald Trump – que impôs tarifas ao alumínio e ao aço mexicano no final de maio, motivo pelo qual o governo mexicano prometeu responder com “medidas equivalentes” – só piorou a situação.

“Os episódios dos últimos dias deixam um cenário muito incerto. E pode ter efeitos muito negativos para uma economia como a do México, grande, mas integrada a um gigante”, acrescentou Villarreal, também diretor do Centro de Pesquisa Econômica e Orçamentária (CIEP).

Somado a isso há um fator que dificulta bastante a diplomacia. O temperamento de Trump, seu ferrenho discurso contra a migração e contra o México, sua fixação em construir o muro na fronteira, e as contínuas demonstrações de falta de respeito para com o país vizinho.

Este cenário marca a situação política e econômica no México, que no domingo elegerá o novo presidente em uma das maiores eleições da história do país.

O secretário de Economia do México, Ildefonso Guajardo, anunciou recentemente que as reuniões para fechar o chamado Nafta 2.0 serão retomadas em julho, quando o México já tiver escolhido o novo governante, embora este só assuma o cargo em dezembro.

“Tudo parece indicar que a renegociação caberá à próxima administração, exceto se houver uma mudança de cenário”, expressou Villarreal.

As previsões indicam uma guinada política no México com a vitória do líder esquerdista Andrés Manuel López Obrador. A este fator se somam as eleições legislativas de novembro nos Estados Unidos, que podem diminuir a força dos republicanos na Câmara dos Representantes e no Senado.

Por esses motivos, é pouco provável que o novo acordo comercial seja concluído ainda neste ano, apesar de o pacto ser de vital importância para o México, que destina 80% de suas exportações aos EUA.

De acordo com Molano, o sucesso ou não da renegociação “é uma moeda lançada no ar”. O especialista afirmou que ter um “acordo ruim pode ser pior” do que não tê-lo e criticou as “vantagens assimétricas”, por exemplo no setor automotivo, exigidas por Trump.

Ambos os economistas consideram positivo o posicionamento da equipe de mexicana de negociação. Para Villarreal, esta pode ser uma oportunidade para o México promover uma grande mudança de rumos em sua política comercial.

“A solução poderia ser mais TPP (Tratado Transpacífico) e reforçar os tratados com a Europa como parte de uma diversificação. Embora pela natureza da relação com os Estados Unidos esta seguirá sendo primordial por muitos anos”, concluiu.

No dia 1º de julho, 89 milhões de pessoas convocadas às urnas poderão escolher o novo presidente do México, os deputados, os senadores, oito governadores e o chefe de governo da Cidade do México, entre outros 3.400 cargos.

FONTE: EFE BRASIL

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