“O Japão já é um país de imigrantes, mas governo não admite”, diz sindicato sobre trabalhadores estrangeiros

Quando uma jovem vietnamita descobriu no final do ano passado que estava grávida depois de vir ao Japão como estagiária, ela teve uma escolha difícil: fazer um aborto ou voltar para o Vietnã.
Mas voltar para casa a deixaria incapaz de devolver os US$ 10 mil que ela pegou emprestado dos recrutadores em seu país.
“Ela precisa ficar para pagar suas dívidas”, disse Shiro Sasaki, secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores Zentoitsu, que defendeu a vietnamita e disse que esse problema se tornou comum.
Animada por esperanças de salários mais altos, mas afetada por empréstimos, a juventude vietnamita – o grupo de trabalhadores estrangeiros que mais cresce no Japão – estará entre os afetados por um novo esquema para permitir a entrada de mais trabalhadores a partir de abril.
“Estagiários da China vêm diminuindo, pois os salários no país deles estão aumentando com o crescimento econômico, enquanto no Vietnã, o desemprego é alto para jovens com altos níveis de escolaridade, então muitos jovens querem ir ao exterior para trabalhar”, disse Futaba Ishizuka, pesquisador do Instituto de Economias em Desenvolvimento.
O programa de estágio técnico é amplamente conhecido como uma porta de entrada para mão de obra barata no Japão. Os abusos relatados incluem salários baixos e não pagos, horas excessivas, violência e assédio sexual. No Vietnã, recrutadores geralmente cobram taxas exorbitantes dos estagiários.
Tais problemas persistirão e poderão piorar sob o novo sistema, visando aliviar uma escassez histórica de mão de obra, segundo entrevistas com ativistas, acadêmicos, sindicalistas e estagiários.
O primeiro-ministro Shinzo Abe, cuja base conservadora teme o aumento da criminalidade, insistiu que a nova lei, promulgada em dezembro, não constitui uma “política de imigração”.
Isso preocupa os críticos.
“Na verdade, o Japão já é um país de imigrantes. Mas o governo só toma medidas temporárias alegando que não é uma “política de imigração” e que as pessoas não vão ficar”, disse Akira Hatate, diretor do sindicato Japan Civil Liberties. “As necessidades da sociedade e dos trabalhadores não são atendidas”.
O sistema de estágio começou em 1993 com o objetivo de transferir habilidades para trabalhadores de países em desenvolvimento. Mas os abusos persistentes se desenvolveram cedo, dizem os especialistas.
Essas questões foram destacadas no ano passado durante o debate sobre a nova lei.
Entre os casos estava o de quatro empresas usando estagiários para o trabalho de descontaminação em áreas afetadas pela radiação após o desastre nuclear de março de 2011 em Fukushima. Duas empresas, também acusadas de não pagar salários adequados, foram proibidas de empregar estagiários durante cinco anos. As outras receberam advertências do Ministério da justiça.
Uma pesquisa do Ministério do Trabalho publicada no ano passado mostrou que mais de 70% dos empregadores tinham violado regras trabalhistas, como excesso de horas e problemas de segurança.
A Organização para Treinamento de Estagiários Técnicos (OTIT), um grupo de vigilância criado em 2017, emitiu um aviso aos empregadores dizendo que os estagiários são cobertos pela legislação trabalhista japonesa. O órgão disse que é proibido dar tratamento injusto às trabalhadoras grávidas.
As condições severas levaram mais de 7 mil estagiários a abandonar seus empregos em 2017, dizem os especialistas, muitos atraídos por corretores que prometem documentação falsa e empregos com salários mais altos. 
Como os estagiários não têm permissão para trocar de empregador, deixar o trabalho geralmente significa perder o visto. Alguns recorrem a abrigos administrados por grupos sem fins lucrativos ou recebem ajuda de sindicalistas; muitos desaparecem em um mercado negro de trabalho.
A nova lei permitirá que 345 mil estrangeiros entrem no Japão nos próximos cinco para trabalhar em 14 setores, como construção e cuidados a idosos. O visto tem duração de cinco anos e eles não poderão trazer familiares.

FONTE : ALTERNATIVA ON LINE

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