Olivia Hime expõe maturação da voz ao refletir belezas da canção brasileira no álbum ‘Espelho de Maria’

O 15º álbum de Olivia Hime, Espelho de Maria (Biscoito Fino), reflete a maturação do canto dessa artista carioca de atuais 75 anos. Com voz depurada ao longo dos 40 e poucos anos de atuação profissional como cantora, Olivia tem álbuns conceituais, como Alta madrugada (1997), que ainda precisam ser escutados e avaliados com a devida atenção.

Embora tenha iniciado a carreira fonográfica em 1977, a cantora e compositora carioca sempre se identificou com a geração de cantores, compositores e músicos que, herdeiros da Bossa Nova, se fizeram ouvir ao longo da década de 1960 em intenso fluxo de renovação da música brasileira que gerou a corrente rotulada como MPB.

Centrado nos cancioneiros de Dori Caymmi, Edu Lobo e Francis Hime, como explicitado no subtítulo, o álbum Espelho de Maria dá voz a grandes compositores identificados com essa MPB hoje já à margem do mercado, soando como disco-manifesto em defesa da preservação e perenidade da canção nacional.

Estruturado na forma de suítes, o álbum espelha belezas da canção brasileira destes três compositores na voz grave de Olivia.

Capa do álbum 'Espelho de Maria', de Olivia Hime — Foto: Nana Moraes

Capa do álbum ‘Espelho de Maria’, de Olivia Hime — Foto: Nana Moraes

Contudo, paradoxalmente, o canto funciona como mais um elemento que se harmoniza nos arranjos orquestrados por Francis Hime (na suíte com canções de Dori), Paulo Aragão (na suíte dedicada à obra de Edu) e Dori Caymmi (na suíte com músicas de Francis) para o disco formatado com intervenções ocasionais de outros maestros, como Jaime Alem, cujo toque da viola acentua o ar interiorano de Violeiro (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, 2011), tema da suíte de Dori.

Envolto em cordas suntuosas, Espelho de Maria é disco de atmosfera clássica e, sob certo prisma, conservadora por manter Olivia Hime em zona de conforto melódico e harmônico, dando voz a compositores que falam a mesma língua musical da artista.

Nem por isso, o álbum deixa de se impor como um dos melhores da discografia coerente da cantora pela maestria dos arranjos, pelo canto impecável de Olivia, pela beleza das canções – sim, são bonitas todas as canções, e nem espera-se algo diferente com tais assinaturas – e pela depuração do formato sinfônico testado pela artista há 17 anos na gravação, em 2001, do álbum Mar de algodão – As marinhas de Caymmi, lançado em 2002 com visão sobre o cancioneiro de um certo Dorival Caymmi (1914 – 2008), pai de Dori, cantor e compositor majestoso, ora abordado por Olivia.Olivia Hime canta músicas de Dori Caymmi, Edu Lobo e Francis Hime no álbum 'Espelho de Maria' — Foto: Divulgação / Nana Moraes

Olivia Hime canta músicas de Dori Caymmi, Edu Lobo e Francis Hime no álbum ‘Espelho de Maria’ — Foto: Divulgação / Nana Moraes

Intitulada Canções sem fim, a suíte de Dori Caymmi é a mais arrebatadora pela costura que impacta já na abertura instrumental que, em sublime tom jobiniano, alinha Amazon river (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, 1992) – tema originalmente instrumental creditado comoAmazonas na contracapa e no encarte da edição em CD do álbum, em vez do habitual Rio Amazonas escrito em discos brasileiros – com O amor é meu chão (Dori Caymmi e Nelson Motta, 1972) e Saveiros (Dori Caymmi e Nelson Motta, 1966) entre citações vocais da Canção sem fim(Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, 2017) e de O cantador (Dori Caymmi e Nelson Caymmi, 1967).

Na suíte de Dori, obra-prima que reitera a maestria de Francis como arranjador, Olivia dá voz a canções que evocam um Brasil de mares, rios e matas – um país romantizado pela escrita do poeta letrista Paulo César Pinheiro, parceiro mais frequente de Dori na atualidade – sem perder de vista o eixo temático que sustenta Espelho de Maria: o manifesto em favor da canção.

Intitulada São bonitas as canções e orquestrada por Paulo Aragão, arranjador e violonista de toque clássico que integra o Quarteto Maogani, a suíte com canções de Edu Lobo é a menos surpreendente das três. Talvez porque canções soberanas, como Sobre todas as coisas (Edu Lobo e Chico Buarque, 1983), já tenham recebido tratamento de câmara ao longo dos tempos. E também interpretações emblemáticas de outras cantoras.

Contudo, ali, na suíte de Edu, reside a grande surpresa do repertório, Ave Maria (Edu Lobo, Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, 1965), tema do musical de teatro Arena canta Zumbi (1965) até então gravado somente pelo próprio Edu Lobo e ora revivido por Olivia em registro vocalizado que evidencia regiões mais agudas da voz da cantora e que embute apropriada citação de Reza (Edu Lobo e Ruy Guerra, 1965).

Olivia Hime estrutura o álbum ‘Espelho de Maria’ em forma de suítes orquestrais — Foto: Divulgação / Nana Moraes

Intitulada Canções apaixonadas, a suíte com obras de Francis Hime é fiel ao título ao emendar músicas de (des)amor na moldura orquestral criada por Dori Caymmi, arranjador dessa suíte também formatada com a intervenção do próprio compositor, Francis, na Valsa-rancho (Francis Hime e Chico Buarque, 1973).

Em grande momento da suíte que arremata o disco, o canto depurado de Olivia Hime é o leme que conduz Embarcação (Francis Hime e Chico Buarque, 1982) com segurança a um porto onde a voz se casa perfeitamente com a canção. E com o sentido da canção.

Mas a voz da cantora, cabe ressaltar, é em essência um elemento a mais, ainda que fundamental, na orquestração das canções de Espelho de Maria. Até porque outras vozes se fazem ouvir eventualmente ao longo do disco idealizado pela própria Olivia e roteirizado pela artista com Francis Hime, parceiro na música e na vida.

Tanto que a voz de Francis é ouvida na inebriante abertura instrumental que introduz o disco. Da mesma forma que o canto profundo de Dori Caymmi se impõe, ao fecho do álbum, na recorrente Canção sem fim, música bisada para reforçar o recado de que, como a Bahia de Caymmi, a canção viva ainda lá, brilhando no espelho que reflete a maturação do canto de Maria Olivia Leuenroth Hime.

FONTE :G1

   

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