Vida e morte da primeira onça monitorada na Caatinga

Quando Vitória foi capturada e examinada pela primeira vez pela equipe da bióloga Cláudia B. Campos, em março de 2017, ela pesava 30 kg e media 1,55 m de comprimento com a cauda. Tinha o tamanho comum das fêmeas de onça-parda (Puma concolor) da Caatinga, menor que o de fêmeas de outros biomas. Sua idade foi estimada em 6 anos, bastante jovem para um animal com potencial para viver até os 20 anos. Suas mamas indicavam que já havia tido filhotes, mas não estava lactante.

Vitória foi a primeira onça-parda a ser monitorada na Caatinga. Ela costumava se refugiar nos vales e áreas mais frescas de mata preservada entre os municípios de Campo Formoso, Sento Sé, Umburanas, Sobradinho e Juazeiro, na Bahia. Contudo, como uma típica onça-parda, também utilizava áreas antropizadas para realizar suas atividades. Na ocasião da captura, ela recebeu um colar com GPS, um meio pela qual os pesquisadores acompanharam seus passos até janeiro de 2018, quando um trágico incidente pôs fim à sua vida.

O sistema de GPS no colar da suçuarana, carinhosamente apelidada de “Vivi” pelos pesquisadores, gravava os caminhos que ela fazia ao longo dos dias e enviava via satélite para os pesquisadores, que visualizavam os trajetos sobre o mapa da região. Às 11 horas da manhã do dia 12 de janeiro de 2018, durante monitoramento de rotina, Cláudia Campos percebeu que o sinal do colar havia sido interrompido. Duas situações podem ocasionar esta situação: defeito no colar ou o animal estar em alguma grota que impeça o envio de sua posição para o satélite. Como procedimento padrão, o pesquisador aguarda o dia seguinte para verificar se o sinal retorna. O colar tem ainda um sistema de alarme de mortalidade: quando o animal fica sem se movimentar por 24 horas, o alarme é acionado juntamente com o envio de sua localização para que o pesquisador possa chegar até o local e verificar se realmente o animal está morto.

Equipe reunida. Da esquerda para a direita: Mariano Neto Ferreira de Jesus (auxiliar de campo), Gediendson de Araújo (veterinário), Ismael alves da Silva (auxiliar de campo), Cláudia Bueno de Campos (bióloga). Foto: Projeto Amigos da Onça/Arquivo.

Não foi o caso de Vitória. Cláudia não recebeu mais nenhum tipo de sinal. Então, alertou sua equipe e montou uma expedição de busca por Vivi. Somente alguns dias depois, a equipe adentrava a área do Boqueirão da Onça, ansiosos por descobrir o que havia acontecido. Com o último ponto de sua localização em mãos, chegaram até o local e puderam confirmar o que temiam: em uma área preservada de Caatinga, no interior da atual área protegida, jazia o corpo decomposto de Vitória.

Analisando o local, a equipe notou pontos onde foram instaladas duas armadilhas do tipo aratraca, muito comuns na região, que já tinham sido retiradas. Uma delas vitimou Vivi — a força do impacto dilacerou sua pata dianteira direita. Os dados registrados pelo colar de monitoramento usado pela onça revelaram aos pesquisadores que ela pisou na armadilha no dia 10 de janeiro, entre 4h e 5h da manhã. Gravemente ferida, passou dois dias agonizando, sendo capaz apenas de se arrastar por alguns metros com a armadilha presa em sua pata. No dia 12 de janeiro, às 11 da manhã, o sinal do colar parou. Foi quando provavelmente o seu algoz, frente a frente com a debilitada onça, atirou nela e no colar, danificando o funcionamento do aparelho e a transmissão do sinal, na esperança de que o corpo da onça não pudesse ser encontrado. No ponto da outra armadilha, estava a carcaça de uma raposinha (Cerdocyon thous), também vítima da ação. Analisando a carcaça de Vivi, os pesquisadores perceberam quatro marcas de furos característicos de arma de fogo. O restante do corpo estava em decomposição e alterado pelos urubus, portanto, não tinham como saber se ela havia levado mais tiros, a não ser por meio de necropsia.

Mais tarde, durante investigações, o irmão da pessoa que abateu Vivi revelou que ela recebera nove tiros. “Sabemos quem foi, como, onde e a motivação. Não foi uma caçada, mas sim um ato direcionado. As ações cabíveis ao ato serão providenciadas pelas autoridades competentes”, esclareceu Cláudia Campos.

Vitória encontrada morta. Foto: Programa Amigos da Onça.

Vivi era uma das menos de 2.500 onças-pardas em idade reprodutiva da Caatinga, segundo estimativas de 2013. Nos outros biomas brasileiros (Amazônia, Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica) a onça-parda foi categorizada como Vulnerável (VU) à extinção. Somente na Caatinga a espécie foi categorizada como Em Perigo (EN), ou seja, neste bioma sua situação é mais crítica do que no restante do país. Estimativas revelam que, nos próximos 21 anos, poderá ocorrer um declínio de mais de 10% desta população em razão da perda e fragmentação de habitat, associada principalmente à expansão da matriz energética eólica, agropecuária, mineração e exploração de madeira para carvão e lenha.

Esforços para conservação

A perda de um animal silvestre ameaçado é uma tragédia por si só, mas a perda de um animal monitorado atinge em cheio os poucos e dispendiosos programas de monitoramento e conservação de espécies ameaçadas.

Na região do Boqueirão da Onça, onde Vivi foi morta, a equipe da pesquisadora Cláudia Campos executa o Programa de Conservação da Fauna – Monitoramento das onças-pardas e onças-pintadas, sob responsabilidade da ENEL Green Power do Brasil e o Programa Amigos da Onça, do Instituto Pró-Carnívoros, que atua na região desde 2012.

Carcaça de Vitória. Foto: Programa Amigos da Onça.

Apesar da brutalidade em que foi vítima e da perda para o programa de monitoramento, Vitória contribuiu, nos 10 meses em que foi monitorada, com informações fundamentais sobre o hábito de vida das onças do Boqueirão, que estão sendo analisadas e serão utilizadas para a continuidade dos esforços de conservação das onças pardas e pintadas na Caatinga. “Perdemos a Vitória, mas as informações coletadas até o dia de sua morte serão utilizadas como combustível para a continuação dos nossos esforços para a conservação desta e de outras espécies da Caatinga”, informou Cláudia Campos. “Trabalhar com conservação é lidar com desafios, um processo lento, complexo, e muitas vezes triste. Respirar fundo e continuar… esses são os deveres de quem acredita que um dia compensará, não importa a escala”, disse a pesquisadora.

FONTE : O ECO.ORG.BR

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