CBMC: encontro brasileiro sobre clima promove discussões e acordos importantes em Recife

O bairro de Recife antigo, no centro da capital de Pernambuco, foi tomado por debates e atividades relacionados à crise climática. A primeira Conferência Brasileira de Mudanças Climáticas (CBMC) aconteceu de 6 a 8 de novembro, justamente neste momento crítico que vive o Nordeste brasileiro, causado pelas manchas de óleo que têm aparecido na região.

O valor do encontro ficou claro já na abertura, realizada no Arcádia do Paço Alfândega, no Recife, com a presença de diversos governadores do Nordeste. Ao longo dos três dias, a CBMC sediou mais de 80 painéis, mesas redondas e ações culturais e foi palco para o lançamento de importantes documentos e compromissos (veja mais abaixo).

De acordo com Renata Camargo, especialista em conservação responsável do WWF-Brasil pela articulação do evento, a CBMC foi um momento necessário para dar voz à sociedade e mostrar a urgência climática que vivemos.

“Estamos a menos de um mês da 25ª Conferência de Clima da ONU. As últimas discussões têm deixado cada vez mais claro a importância de envolver os diferentes atores na implementação de ações de combate às mudanças climáticas. Desde o início, a Conferência Brasileira de Mudanças Climáticas trouxe esta preocupação de envolver diferentes atores em prol de um mesmo objetivo: a segurança climática do nosso planeta”, disse Renata, enfatizando que a tomada de ação precisa ser rápida e contundente para que tenhamos chance de minimizar os eventos extremos que já estão ocorrendo.

“A mistura de governos subnacionais, empresariado e sociedade civil, que foi o grande objetivo deste evento, trouxe a possibilidade de aumentar a discussão sobre mudanças climáticas e contribuir para a ampliação e o aprofundamento de ações, vinculando a outros temas importantes, como é o caso de populações tradicionais, movimentos de gênero ou juventude”, disse ela.

Compromissos pelo clima
Um dos grandes resultados do encontro foi a divulgação de estudos e compromissos em relação às mudanças climáticas. Da Declaração de Recife (documento encabeçado pela organização do evento e direcionado aos diferentes setores da sociedade) ao lançamento dos dados do Sistema de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), divulgado pelo Observatório do Clima, foram vários os documentos lançados durante os três dias.

A esse respeito, o analista do WWF-Brasil Eduardo Canina ressalta a importância do envolvimento dos atores subnacionais na agenda. Este é o caso, por exemplo, da prefeitura de Recife, uma das cidades que participa do Desafio das Cidades Pelo Planeta (OPCC, na sigla em inglês) e que, durante a CBMC, lançou diretrizes e ações práticas para o combate às mudanças climáticas.

“Hoje, 7 em cada 10 brasileiros vivem em áreas urbanas. As cidades já representam mais da metade das emissões globais de efeito estufa e, com a urbanização crescente, este número só tende a aumentar. Por isso, é cada vez mais importante que os municípios façam seu relatório de emissões e adotem ações para reduzi-las. Também precisam incorporar o impacto da mudança do clima em seu planejamento e implementar planos de adaptação”, diz Canina.

Veja os detalhes de alguns destes acordos:
A Prefeitura de Recife assinou o Reconhecimento à Emergência Climática Global pelo Município do Recife. Assim, Recife se junta a um movimento internacional no qual mais de mil governos e entidades de 18 países declararam emergência climática. A declaração estabelece diretrizes e determina que as políticas públicas iniciadas no processo de resposta à emergência climática devem priorizar as comunidades vulneráveis, bem como comunidades históricas e desproporcionalmente impactadas por injustiças ambientais;
Plano de Adaptação Climática do Recife, intitulado de Análise de Riscos e Vulnerabilidades Climáticas e Estratégia de Adaptação do Município do Recife: também assinado pela Prefeitura, o plano reúne 14 medidas de adaptação para aumentar a resiliência nos pontos mais críticos e inclui seis principais vulnerabilidades: inundações, deslizamentos, doenças transmissíveis, ondas de calor, seca meteorológica e elevação do nível do mar;
O estado de Pernambuco lançou seu primeiro inventário de Gases do Efeito Estufa durante a Conferência. O estudo analisa as emissões de CO2 no período de 2015 a 2018 e revela que o maior volume de emissões está nos setores de resíduos sólidos e usos do solo;
A Associação Brasileira de Entidades Estaduais do Meio Ambiente (Abema) apresentou a Carta dos Órgãos Estaduais de Meio Ambiente pelo Clima (a Carta da ABEMA), que ratifica os impactos do clima nas escalas regional e local. O documento foi assinado por instituições dos 26 estados e do Distrito Federal e também reconhece o papel dos Estados na promoção da adaptação aos eventos climáticos, bem como na adoção de um modelo de desenvolvimento de baixo carbono;
Clima também é cultura
Da mesma forma como fizera em Salvador durante a Semana do Clima da ONU, o WWF-Brasil levou a Recife ações artísticas e culturais, buscando tratar o tema das mudanças climáticas de forma mais abrangente. Exemplos disso foram a oficina de grafite com alunos da escola Santa Ana de Olinda; a mesa de “Novos Olhares para as Mudanças Climáticas”, que debateu a questão climática sob outras perspectivas, e o cinedebate Nosso Planeta, Nossos Negócios, que foi realizado no último dia de evento.

Para Alessandra Mathyas, analista do WWF-Brasil na área de energia renováveis, a presença de ações culturais e educativas é importante para diversificar o público dos eventos e engajar cada vez mais a juventude nesta temática.

“A experiência em Salvador durante a Semana do Clima e o nosso trabalho apoiando o Festival Tô Ligado na Energia nos dão a certeza que a arte e a educação são os melhores caminhos para o engajamento em temas complexos, como é o de clima. Por este motivo, para a Conferência, decidimos investir não só em grafite, como também em cinema e na própria discussão de como comunicar o tema. As mudanças climáticas são algo que atinge todo mundo, mas precisamos encontrar uma forma de passar essa mensagem de forma clara e correta. A arte parece ser uma delas”, diz Alessandra.

A ação de grafite começou no dia 6, com oficina sobre a crise climática ministrada por colaboradores do WWF-Brasil na escola Santa Ana. O encontro, que durou cerca de três horas, foi a base para o painel que foi pintado no dia seguinte, nas proximidades do evento, com o apoio da organização Cores do Amanhã, que já atua com o projeto Festival Tô Ligado na Energia, promovido em Recife pela Celpe e que o WWF-Brasil é parceiro.

A estudante Maria da Gloria, uma das participantes do evento, destacou o aspecto colaborativo da atividade, em que os alunos puderam construir juntos o que seria pintado no painel. “A gente escolheu o tema e aprofundou o debate na sala de aula, cada um dando a sua ideia, para que, no final, as pessoas se impactassem com a mensagem de conservação que queremos passar”, diz Maria.

Já para a professora Lucrercia de Santana Borges Harmes, que acompanhou o projeto, disse que a atividade representou “uma oportunidade sem igual, em que se sentiram importantes em poder contribuir e uma experiência enquanto futuro cidadãos, possibilitando que eles despertem essa consciência de responsabilidade como um elemento importante do meio ambiente”.

A ação envolveu 20 jovens que deixaram uma linda mensagem à região metropolitana. Mostraram a preocupação com as mudanças climáticas e a biodiversidade, ao retratar o impacto de combustível na vida marinha, com ênfase nas tartarugas, tão adoradas pela população. O painel móvel foi doado à prefeitura do Recife que terá exposição itinerante -na escola, na Celpe e depois no Jardim Botânico de Recife, sob responsabilidade da Secretaria de Meio Ambiente.

Ainda dentro das atividades culturais, a CBMC promoveu no dia 8 a exibição seguida de debate do documentário Nosso Planeta – Nossos Negócios, uma produção inspirada na série Nosso Planeta, do Netflix, e que tem como parceiro o WWF.

O filme, de cerca de 40 minutos, mostra como as empresas e governos precisam pensar na emergência climática em seus negócios e em qual é o papel das corporações na redução de gases e na contribuição para uma sociedade resiliente, inclusiva e tecnológica. Com imagens e depoimentos impactantes, o documentário gerou ótimos pontos para discussão. Quem tiver interesse, pode assistir de forma gratuita no link www.ourplanet.com/empresas

Já a mesa de comunicação aproveitou os temas debatidos durante a conferência para questionar como é possível traduzir o difícil tema das mudanças climáticas para os diferentes públicos. Participaram do debate, organizado pelo grupo de trabalho de comunicação da CBMC, do qual o WW-Brasil faz parte, Joci Aguiar (Conservação Internacional / Observatório do Clima); Paulo Sérgio Muçouçah (ex-coordenador da Organização Internacional do Trabalho no Brasil e consultor do DIEESE) e Nicole Barbieri (Gerente Regional da Tembici). Sob moderação da jornalista e mestra em gestão em sustentabilidade Cíntya Feitosa, os convidados debateram as relações de clima com os temas de mulheres, trabalho e mobilidade.

A agenda indígena também esteve presente na conferência, com a participação de etnias do Nordeste, Centro-Oeste e Norte e apresentação de ações locais. Em um dos painéis, por exemplo, se falou do papel feminino nas aldeias na preservação da biodiversidade, dos projetos com coleta e replantio de sementes nativas, inclusive para ações de restauração e do quanto os indígenas atuam para conter o avanço do desmatamento, principal vetor de emissões de GEE no Brasil.

FONTE : WWF BRASIL

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