Dólar cai 6% desde março e volta ao patamar de R$ 5,40: queda vai continuar?

O dólar registrou na véspera sua segunda alta em dez pregões, ainda registrando queda de 5,8% desde a sua máxima atingida em 8 de março, passando de R$ 5,80 para R$ 5,46. A moeda está em patamares similares aos registrados em fevereiro, quando chegou a R$ 5,42, e se aproxima da mediana das projeções que os economistas do mercado financeiro têm para o câmbio no fim do ano, de R$ 5,40, de acordo com o Relatório Focus do Banco Central.

Para analistas, a queda nas últimas quatro semanas é natural, mas é cedo para dizer que a tendência da divisa dos Estados Unidos no longo prazo contra o real já não é mais de alta. Para isso, é necessário antes analisar a mensagem do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) na quarta-feira (28) e o andamento da pauta política no Congresso brasileiro.

Segundo Faria Jr., diretor da Wagner Investimentos, há dois fatores que puxam esse recuo: um deles é o cenário externo de depreciação do dólar ante moedas de países emergentes e outro é a resolução de alguns dos problemas políticos do Brasil que preocupavam os investidores estrangeiros.

Em relação à tendência global do dólar, Faria Jr. lembra que ainda são esperadas baixas no dollar index conforme o mercado aguarda pelo direcionamento da política monetária e do balanço do Federal Reserve.

“As cadeias produtivas dos EUA não estão totalmente recuperadas da Covid-19, ainda há atraso nas entregas de suprimento, o que gera repasses de preços para o CPI [Índice de Preços ao Consumidor, na sigla em inglês]”, comenta o especialista. “É importante saber se o Fed considera que essa alta nos preços das commodities e repasse para os preços finais é uma questão provisória ou não.”

Para ele, se as sinalizações do banco central dos EUA seguirem no caminho de manutenção dos atuais níveis de compra de ativos para injeção de dinheiro na economia e de taxas de juros próximas de zero, então o dólar deve continuar caindo. Por outro lado, se uma mudança for anunciada nas compras de títulos é esperada uma apreciação da divisa americana.

Já em relação ao cenário local, Faria Jr. considera que os investidores estão aliviados com a sanção do Orçamento depois de vetos a emendas parlamentares construídas em comum acordo do Ministério da Economia com o Congresso. “O Orçamento inexequível como estava era uma grande fonte de turbulência nos mercados.”

Na avaliação dele, o real tende a melhorar de desempenho enquanto o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL) continuar falando em aprovação das reformas administrativa e tributária uma vez passada a novela do Orçamento.

Lira disse hoje em sua conta no Twitter que a Casa e o Senado têm o compromisso de votar ainda neste ano as reformas tributária e administrativa – esta podendo andar mais rapidamente e ter sua comissão especial instalada entre os dias 10 e 14 de maio.

“Não estou superotimista, mas estou otimista”, disse Marcos Weigt, chefe de tesouraria do Travelex, para a Reuters. “A gente com o tempo percebeu que o Congresso é reformista. A pauta mudou, estamos agora numa pauta mais propositiva”, acrescentou, avaliando que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 no Senado não tende a mexer com os mercados.

A discussão sobre reformas havia ficado de lado nos últimos tempos em meio ao agravamento da crise sanitária e a debates sobre mais despesas para controlar a pandemia, os quais levaram no começo de março à aprovação de uma PEC Emergencial que causou no mercado ruído posteriormente agudizado pelo impasse do Orçamento.

Para Faria Jr., essa melhora no noticiário doméstico se conjuga ao descompasso com que o real estava operando ante as demais moedas de países em desenvolvimento, uma vez que as divisas de emergentes como África do Sul e Chile, por exemplo, bateram seus maiores patamares pós-pandemia nas últimas semanas.

“Essa derretida de mais de 30 centavos é natural. Hoje, o dólar operando nessa banda entre R$ 5,42 e R$ 5,48, nos deixa bem perto dos suportes de R$ 5,48 e R$ 5,44. A primeira é a linha da tendência de médio prazo e a segunda é concentração dos investidores de longo prazo. É um colchão de suporte”, explica.

Hora de comprar?

Faria Jr. não enxerga, contudo, que a tendência do dólar seja de queda no longo prazo em relação ao real. “Os dados da economia brasileira de março e abril não serão tão bons e precisamos ver como o Banco Central está enxergando esse cenário de inflação e emprego. Para quem é um comprador de dólar, faz sentido começar a comprar agora com o objetivo de fazer preço-médio”, recomenda.

Já Weigt disse que não se surpreenderia com o dólar chegando a R$ 5,30 ou R$ 5,20. “Se realmente partir para essa agenda de reformas, se aprovarmos a administrativa, a gente vai para os R$ 5.”

Embora não sustente aposta direcional a favor da moeda brasileira, o Morgan Stanley vê no excesso de volatilidade da taxa de câmbio no curto prazo uma oportunidade tática, tendo como pano de fundo ambiente benigno em termos de risco no qual o dólar pode estar chegando a seu piso no mundo.

“A volatilidade de curto prazo do real continua a operar com prêmio vis-à-vis seus pares e vencimentos mais longos, o que torna atrativa a exposição a uma curva mais inclinada, já que esperamos que o segundo semestre de 2021 seja mais desafiador conforme o calendário político complica o cenário para reformas estruturais”, disseram.

A volatilidade do par dólar/real para três meses estava em torno de 17,5% ao ano, a segunda mais alta dentre os principais pares da divisa brasileira. A volatilidade da lira turca é a maior: 20,7%.

Estrategistas do JPMorgan, por sua vez, veem período de estabilização nas taxas de câmbio e juros no Brasil na comparação com seus pares emergentes, após performance aquém nos últimos meses.

Além do noticiário político-fiscal menos caótico, o banco americano chama atenção para o efeito dos aumentos da Selic sobre a taxa de câmbio – o JPMorgan projeta nova elevação de 75 pontos-base no juro básico em maio.

“Estimamos que para cada 100 pontos-base de aumentos de juros no Brasil em relação aos emergentes um total de US$ 2,3 bilhões em posições vendidas em real nos contratos cambiais na bolsa doméstica pode ser revertido, o que representa um significativo apoio à moeda brasileira.”

Os estrategistas avaliaram ainda que, apesar da melhora recente, o real ainda não parece “esticado”, o que manteria espaço para mais valorização.

Para Bernardo Zerbini, um dos responsáveis pela estratégia macro da AZ Quest, o câmbio está entrando numa “janela benigna” que, se estendida, pode terminar com o dólar entre R$ 5,35 e R$ 5,40.

“Estamos aumentando posições cautelosamente otimistas principalmente em bolsa e câmbio”, disse ele para a Reuters. “Tínhamos uma posição um pouco menor no real, agora aumentamos. Estavam exageradas as medidas de preço (da taxa de câmbio), considerando métricas como termos de troca e outras.”

Várias instituições financeiras têm dito que o real é ou está entre as moedas mais baratas do mundo emergente, depois de depreciar mais de 20% no ano passado e cair mais 5% em 2021.

A Rio Bravo também vê espaço para mais correção para baixo no dólar, mas tem dúvidas sobre a sustentabilidade do movimento.

“Os problemas políticos e fiscais vão continuar, porque é meio que a realidade brasileira… E lá nos Estados Unidos a discussão de inflação, de aumento da curva de juros, dos juros futuros, esfriou bastante, mas é algo que pode voltar ao radar, especialmente com essas novas discussões de estímulos em diferentes frentes nos EUA”, disse Evandro Buccini, diretor de renda fixa e multimercado da Rio Bravo.

Um cenário favorável ao real, segundo o gestor, é a continuação do ciclo de normalização da Selic, mas sob certas circunstâncias.

“A gente tem que ver como vai se comportar a inflação nessa situação. Se o BC precisar elevar mais os juros por causa de uma inflação que vem com a recuperação econômica, acho que é bom para o câmbio. Além dos juros mais altos, teríamos crescimento.”

FONTE: INFOMONEY

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