EX-FAXINEIRA CONCLUI FACULDADE E EMPREENDE NO SETOR DE LIMPEZA.

Por Célia Ribeiro

Quando começarem os Jogos Abertos do Interior, no próximo dia 11, em Marília, uma capoeirista que conquistou medalhas de ouro, prata e bronze em inúmeras competições pela cidade vai recordar, com saudade, o tempo em que conciliava os treinos de capoeira, o estágio de Pedagogia e as faxinas que fazia para sobreviver. Aos 36 anos, Marina Galhardo não aparenta a força que concentra no físico de “peso pena” e que inspira muitas mulheres.

Natural do Paraná, Marina veio para Vera Cruz, a 15 quilômetros de Marília, aos três anos de idade. A família foi trabalhar nas lavouras de café e, desde cedo, ela aprendeu que teria que lutar muito se quisesse conquistar seus sonhos. E assim o fez!

Até a adolescência, ela trabalhava na roça e também fazendo faxinas em casas de família. Aos 15 anos, viu a oportunidade de concluir o segundo grau em uma escola rural. Era o começo da trajetória que a levou, anos depois, para o curso de Administração de Empresas e em seguida para o de Pedagogia.

De Vera Cruz para Marília, a moça ingênua, acostumada à vida simples do campo, teve que aprender como era o ritmo da cidade. No começo, trabalhou como babá para uma conhecida família e, anos depois, mudou-se para outra residência onde cuidava de tudo, da limpeza à cozinha, sempre morando no emprego.

Na época, conta Marina, não podia estudar porque trabalhava até tarde e não podia ficar saindo da casa dos patrões. Por isso, adiou o sonho da faculdade. Aos 22 anos, engravidou e foi demitida sem receber o que tinha direito porque nunca trabalhou com carteira assinada. O casamento não deu certo e ela precisou recomeçar.

“Voltei para a roça com o filho nos braços”, recorda. A saída foi pegar o máximo de faxina que conseguisse: “Eu tinha meu filho para alimentar. Então, eu aceitava qualquer 20 reais para passar umas roupas ou 50 reais por uma faxina. Tinha dias de trabalhar até tarde da noite de medo de não me pagarem por não gostarem do trabalho”.

A VIRADA

A capoeira surgiu na vida de Marina como transformação. Ela procurou uma academia e pediu informações sobre alguém disposto a treina-la. Foi assim que ela foi descoberta pelo mestre Edvaldo Pereira que, vendo seu empenho, propôs que treinasse pra valer para competir por Marília, na categoria peso pena. Em troca, teria uma bolsa de estudos integral para cursar Pedagogia.

Antes, ela tinha conseguido cursar Administração de Empresas por três anos, mas perdeu a bolsa em outra faculdade por conta dos horários das faxinas que continuava a fazer para sobreviver. Nos anos de UNIMAR, Marina conquistou muitos troféus como capoeirista e se virava para dar conta da rotina pesada: treinos, estágio de Pedagogia e as faxinas.

“Foi uma fase difícil e de muita luta. Às vezes, eu saía do Clube dos Bancários e tinha que faxinar uma casa no Aeroporto. Pegava ônibus até a metade do caminho e ia a pé ou pegava carona para chegar ao trabalho”, recorda. No entanto, ao fim do curso veio outra decepção. Em busca de trabalho em escolas particulares, viu que o salário era inferior ao que ela recebia fazendo limpeza nas casas.

Com muita determinação, Marina encarou o desafio de fazer do limão uma limonada. Era 2016 e com a nova lei dos empregados domésticos, muitas famílias não podiam mais manter funcionárias sem registro por conta da fiscalização mais rigorosa. Ela viu a oportunidade de empreender usando seu conhecimento prático sobre a faxina.

Foi quando Marina abriu uma microempresa de limpeza, a “Amigas do Lar”. O sonho era ter um negócio em que as colaboradoras fossem tratadas com respeito, tivessem seus direitos respeitados e pudessem ganhar seu sustento dignamente. No começo, ela conta que foi difícil porque “ninguém trabalhava como eu”. Aos poucos, entendeu que teria que treinar as funcionárias para que tivessem o mesmo padrão de qualidade nos serviços de limpeza.

Hoje, a “Amigas do Lar”, que funciona perto da Santa Casa, conta com 08 funcionárias e, em breve, entrará a nona colaboradora. Marina tem um carinho imenso pela equipe e não permite que as funcionárias sejam destratadas. “Já deixei de atender cliente que desrespeitou minhas funcionárias. Tivemos problemas de assédio pelos homens e até discriminação”, revela.

DETERMINAÇÃO

Perguntada sobre a fórmula do sucesso, Marina diz que “tem que ter coragem, perseverança e fé. Quando abri minha MEI o Brasil estava falido. Se aparecer uma oportunidade, tem que pegar, agarrar e levar com você”, pontua. A empresária que se orgulha do passado de lutas faz questão de acompanhar de perto seu negócio e, se for preciso, coloca a mão na massa.

“Até hoje, se tem um guarda-roupa para arrumar ou um quintal para passar máquina, vou lá e faço”, afirma, acrescentando que poder criar seu filho com dignidade e dar oportunidade de trabalho para outras mulheres são as maiores vitórias. Atualmente casada e com o filho adolescente, Marina que é devota de Nossa Senhora ainda tem tempo de se dedicar a um projeto social em Vera Cruz.

Recebendo doações de roupas e calçados que são vendidos em um bazar realizado aos sábados, ela lidera um grupo de voluntárias que auxilia famílias carentes com medicamentos: “O foco são as mulheres, mas já ajudamos um homem que fazia tratamento para depressão e o medicamento, que custava 170 reais, não tinha na rede básica. A gente pega a receita, compra e entrega os remédios”, revela.

E assim, multiplicando o tempo e dividindo os resultados, Marina segue no pódio da vida. Com medalha de ouro, certamente!

A empresa “Amigas do Lar” está localizada à Rua Bartolomeu Bueno, 144, Sala 06 – próxima à Santa Casa. Contato: (14) 997686062

Fonte: Reportagem publicada na edição de 02.11.2019 do Jornal da Manhã

(Eliza Kawano – eliza@conexaomarilia.com.br)

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