Mercado aprova mudança de tom de Bolsonaro na Cúpula do Clima, mas teme que discurso fique só na retórica

Analistas de mercado avaliam que o discurso do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na Cúpula do Clima foi positivo, com alguns mencionando inclusive uma “guinada” na postura do presidente, que passou a ser menos negacionista e mais conciliadora. Porém, há uma forte descrença sobre a capacidade e vontade do governo de transformar o discurso em prática.

Os três principais pontos destacados pelos analistas foram: a duplicação de recursos para fiscalização ambiental, a promessa de zerar o desmatamento ilegal até 2030 e a antecipação de 2060 para 2050 da meta de neutralidade de carbono (veja a matéria completa sobre o discurso).

A equipe de análise política da XP destaca que a agenda ambiental brasileira afeta o progresso do acordo entre Mercosul e União Europeia, o acesso do Brasil à OCDE (o clube dos países ricos) e gera tensões com líderes mundiais, por isso a participação do presidente na Cúpula foi “altamente relevante”.

Os analistas da XP ressaltaram, porém, que o governo afirmou o compromisso com a agenda ambiental de forma genérica. “Sem grandes surpresas, a exposição não deve alterar o cenário político”, dizem os analistas em relatório.

Poucos minutos após o discurso do presidente, o Ibovespa, que estava em alta, virou para queda de 0,3%. Logo depois voltou a subir, mas perdeu o ímpeto acompanhando a volatilidade dos mercados externos, que passaram a operar em baixa na tarde desta quinta-feira (22), após notícia sobre alta de impostos nos EUA.

Eduardo Felipe Matias, doutor em direito internacional e autor do livro “Humanidade contra as cordas – Luta da sociedade global pela sustentabilidade”, avalia que o discurso foi positivo e pode melhorar o humor da comunidade internacional em relação ao Brasil, mas não produz resultados isoladamente.

Matias diz que é esperado que os líderes globais não detalhem tanto as medidas para atingir as metas definidas na Cúpula por se tratar de uma fala rápida, de três minutos, por isso agora o foco se volta ao follow-up do discurso, ou seja, aos seus desdobramentos. “Anunciar boas intenções é muito fácil, mas o país tem que ter medidas para embasar as metas. Então foi um discurso positivo, mas não podemos baixar a guarda, precisamos ver o que vem a seguir”, diz.

Falta de medidas concretas é a principal crítica

Logo após o discurso de Bolsonaro, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, confirmou em coletiva de imprensa que o governo brasileiro irá dobrar o orçamento deste ano para fiscalização contra desmatamento na Amazônia, mas afirmou que o Brasil ainda espera recursos estrangeiros para cumprir as metas.

Segundo o ministro, o país precisa de US$ 1 bilhão por ano para cumprir um plano apresentado ao governo americano que permitiria reduzir o desmatamento ilegal em 30% a 40% em 12 meses. “O Brasil receber esse apoio para o plano que foi colocado e orçado em US$ 1 bilhão é bastante razoável. Isso se insere dentro da ajuda que foi colocada pelo presidente Joe Biden na campanha, de US$ 20 bilhões”, disse Salles.

Durante a campanha, Biden afirmou que poderia reunir um grupo de países para investir US$ 20 bilhões para o Brasil parar de desmatar a Amazônia, mas também poderia impor sanções se o país não avançasse nesse sentido. À época, Salles e Bolsonaro rechaçaram e criticaram a ideia.

A falta de medidas concretas para atingir as metas anunciadas são o principal ponto de crítica sobre a posição do governo. “O discurso foi positivo, mas vazio porque não sinaliza concretamente o que será feito. Já era esperado um discurso conciliatório, mas o problema é que com a mesma estrutura na cúpula ambiental do Brasil fica difícil acreditar que haverá alguma mudança”, diz Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Luiz Fernando Quaglio, especialista em Investimentos Sustentáveis e ESG da Veedha Investimentos, avalia que houve uma “guinada na retórica de Bolsonaro”. “O presidente saiu daquele espectro negacionista. Houve um discurso que, para os ouvintes da Cúpula, soou um pouco mais agradável, mas há uma certa desconfiança do mercado e dos investidores institucionais em relação ao governo Bolsonaro sobre o tema do clima”, diz.

Para Quaglio, a pressão exercida pelos Estados Unidos desde a chegada de Biden provocou uma reflexão por parte do governo brasileiro – o que ficou evidente com a demissão do chanceler Ernesto Araújo. Mas ele afirma que havia uma expectativa de que fossem anunciadas metas mais agressivas.

“O mercado espera uma mudança na relação com o desmatamento e a Amazônia, uma conciliação do discurso com a prática, por meio da ratificação de investimentos em fiscalização, reativação de instituições como o Ibama, e de agentes fiscalizadores para que haja uma fiscalização maior sobre construtores, madeireiros e quem desmata a Amazônia. Falta uma ação coordenada brasileira que dê um espectro de ação, algo concreto para além da retórica”, diz o especialista em ESG da Veedha.

Davi Lelis, sócio da Valor Investimentos, destaca que a Cúpula deixa claro que o tema ESG (adoção de critérios sustentáveis, sociais e de governança) está cada vez mais presente no mercado e, portanto, deve ser monitorada de perto. “Dependendo do posicionamento de Bolsonaro e do Brasil em questões ambientais podemos nos destacar ou sofrer sanções. Se houver piora, podemos ver aumento do ‘risco-país’ e das taxas de investimento que pagamos ao investidor estrangeiro para atrair recursos externos.”

Mercado global

Do ponto de vista global, a principal percepção sobre a Cúpula foi a retomada da liderança dos Estados Unidos no combate global às mudanças climáticas, após um hiato de quatro anos, durante a gestão Trump.

Joe Biden prometeu reduzir as emissões de gases do efeito estufa dos EUA em pelo menos 50% até 2030. Em um discurso diplomático, sem mencionar países específicos, falou sobre a importância da cooperação entre os países para que o mundo avance na questão do clima.

“A Cúpula foi além do clima, ao mostrar a retomada da conversa dos EUA com outros países e sua liderança global, que havia sido interrompida com Trump. Também confirma a retomada da postura mais multilateral do governo americano”, comenta Lelis, da Valor.

Os investidores também observaram com atenção o discurso do presidente da China, Xi Jinping, já que os chineses são hoje os principais emissores de gases do efeito estufa do mundo. Apesar de não ter anunciado novas metas na Cúpula, o líder chinês reiterou as metas já anunciadas pela China – atingir o pico de emissões de carbono até 2030 e chegar à neutralidade até 2060  – e disse que o maior fardo em combater as mudanças climáticas deve vir dos países ricos.

“Em novembro, será realizada a COP26, em Glasgow, que é a reunião oficial do clima. Espera-se que até lá países avancem mais nas medidas para atingir as metas divulgadas hoje. No caso da China, Xi Jinping pode não ter anunciado novas metas agora para não denotar que cede à pressão dos EUA. Mas a China tem se colocado como um país que entende a importância de combater as mudanças climáticas”, diz Eduardo Matias.

Lelis ressalta que o papel da China e dos Estados Unidos nas discussões sobre o clima devem seguir no foco dos investidores. “Os países já tinham atritos, como ficou claro com a guerra comercial vista nos últimos anos. Então uma guinada dos Estados Unidos pode levar o país a impor sanções para forçar a China a aceitar o acordo climático nos seus termos.”

Os discursos de outros líderes também seguiram no sentido de reafirmar metas e reforçar a importância do tema ambiental. Alguns deles, como a chanceler alemã Angela Merkel, também demonstraram nas falas um certo alívio ao ver novamente o governo americano trazendo um discurso de colaboração e se comprometendo com metas ambiciosas.

Outro destaque ainda foi a participação de alguns países em desenvolvimento, que assumiram uma posição de maior liderança no combate às mudanças climáticas, como Blangadesh, que apresentou planos considerados mais concretos inclusive que os pares mais ricos.

Ceticismo

Em editorial sobra a Cúpula do Clima, a revista britânica The Economist, destacou que se a ação climática fosse medida em discursos, os Estados Unidos já poderiam ter certeza de seu sucesso. “As metas de Biden são um progresso real para um presidente americano, mesmo que Donald Trump não tivesse colocado a barra de comparação abaixo do solo”, diz a publicação.

Mas a revista afirma que os líderes globais têm motivos para olhar as promessas americanas com ceticismo, destacando, entre outros fatos históricos, que: na década de 1990, a administração de Bill Clinton negociou o protocolo de Kyoto, mas o Senado americano se recusou a ratificá-lo; Obama pressionou pelo acordo de Paris, mas Trump se retirou em 2017; e Obama prometeu fornecer US$ 3 bilhões em financiamento climático para os países mais pobres; mas US $ 2 bilhões ainda estão pendentes.

Também destacou o pacote de infraestrutura de Biden e a meta de zerar as emissões de carbono relacionadas à geração de energia até 2035. “Seria a legislação climática mais importante dos Estados Unidos até o momento, mas a oposição republicana pode impedir que o pacote seja aprovado pelo Senado como foi proposto”.

O editorial diz que as metas ambientais são complexas do ponto de vista doméstico, portanto, e podem ser igualmente desafiadoras do ponto de vista global, ressaltando que o interlocutor mais importante da Cúpula é a China, país com o qual as relações dos EUA diminuíram de forma mais acentuada.

A publicação lembra que em uma visita a Xangai neste mês, John Kerry, enviado especial do clima do governo americano, pediu que o meio ambiente seja uma questão tratada de forma “independente” pelos chineses. Mas a revista diz que o clima é indissociável de debates sobre influência geopolítica, propriedade intelectual ou política industrial. “A reunião do Sr. Biden é uma demonstração de sua determinação. Mas o sucesso dependerá da cooperação de seus adversários, no Congresso e em Pequim”, diz.

FONTE: INFOMONEY

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