Obrigado, mãe!

Por Gabriel Chalita

O dia da despedida foi delicadamente triste. A noite já cobria o mundo, quando ela deixou de respirar. Foram quase cinco meses de UTI. Ela chegou quase sem vida. Viveu dias sem acordar. E acordou feliz.

Como esquecer do primeiro sorriso depois da longa pausa? Como esquecer seu olhar sedutor pedindo comida? A fome era um bom sinal. Sua fome de vida, também. Foi vencendo os limites, foi voltando a falar. Foi brincando com os médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e outros cuidadores da sua saúde. Como sou grato a eles todos! Pedia beijo, quando entravam, e meu irmão ralhava sorrindo, brincando de filho ciumento de uma mãe linda.

Fui contando sua história, enquanto ela se portava satisfeita. Os dentes eram todos dela, vieram da Síria, brincava. Foi a mais bonita mulher que chegou ao porto de Santos naquele dia. E ela meneava a cabeça, concordando. Conheceu meu pai, em uma tarde qualquer, em uma cidade dos tantos interiores do Brasil. E se entregou ao amor. Contei que ela teve medo nas primeiras noites. E ela concordou, explicando que foi só no começo. E deu uma risada santamente maliciosa. Como se amaram aqueles dois! Como se completaram em suas diferenças!

Meu irmão, depois da despedida, me perguntou o que tantos perguntam quando se partem pela partida de alguém que amam. “Onde estará ela, agora?” E eu tentei responder algum alívio. Para ele, para mim, para os netos que tanto acenderam luzes na avó. Ela está plena de amor. O corpo sem vida continua nesse quarto, mas ela está inteira embelezando o que a morte não vence. Meu irmão me olhou. Eu prossegui. No ventre materno, a criança não sabe da vida grande que vai ganhar depois do parto. Depois da partida dessa vida, não conseguimos compreender a liberdade do amor sem dor, a plenitude do viver sem morte, o encontro com o Artista maior. Há o mistério que nos separa da surpresa e é isso o que consigo dizer entre a fé e o choro doído da saudade.

Antes da noite que a levou, houve os instantes em que pude dizer o quanto a amei, o quanto foi lindo ser seu filho, o quanto eu era grato pelo cordão que nunca se rompeu. 
Os instantes são uma vida inteira. Fui menino, novamente, naquele quarto. O menino a quem ela explicou o mundo. Fui um pouco mais crescido, quando ela chorou os filhos que teve que enterrar. Quanta dor naquelas despedidas! E ela se refez. E se desfez, novamente, quando disse adeus ao seu amor, meu pai. E se refez com os netos preenchendo os dias, com a bisneta que chegou azul como um dia lindo amanhecendo. E continuou inteira brincando de mandar em todo mundo.Minha mãe amada, obrigado.

E tem sua irmã, minha tia. Viveram juntas desde sempre. Cruzaram o mar. Choraram a terra que ficou. E agora? “Tia, já não tenho pai, nem mãe. Você cuida de mim?” Entre pausas e lágrimas, ela quis compreender. Por que a irmã não resistiu? A irmã resistiu. Viveu a vida dos fortes. Não desperdiçou doces nem sorrisos. Obrigado, mãe. Tenho você em mim até o meu último dia por aqui. Como tenho meu pai. Que agora está pleno. No pulsar das minhas histórias, vive você. Vou chorar, sim, mas vou rir também. Sem muito esforço.

Pulsar, foi o que disse. Respirei meses em você antes de nascer, nasci em você, nasci muitas vezes em seu colo costurando minhas dores. Sua voz dizendo carinhos. E broncas de amor. Seu toque espantando as febres. Agora, você sou eu. Você são tantos. Que te conheceram. Que se alimentaram do tal sorriso, do mais lindo de todos os sorrisos do mundo. É isso que sinto.

Obrigado, mãe, por ter ficado um pouco mais para que pudéssemos cuidar de você. Foi tão pouco perto do que você cuidou. Concordo com o poeta, quando diz que as mães deveriam ser proibidas de morrer. As mães não morrem, poeta. A minha está viva. Pena não poder receber mais o seu beijo, pena não poder despentear o seu cabelo, pena não poder deitar com ela para ouvir e contar histórias. O abraço terá que ser na alma. Mas ela está viva, poeta. Não do jeito que pude decidir, mas do que jeito que é. A mim, cabe amar e expandir minha alma até encontrá-la.

Obrigado, mãe.

Fonte: “Obrigado, mãe!” é o título de minha crônica publicada, hoje, no jornal O Dia RJ – Gabriel Chalita

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