Orquestra com refugiados segue com arrojo a caravana de Chico Buarque no segundo álbum

Quando Chico Buarque lançou há dois anos o álbum Caravanas (2017), a música-título As caravanas sobressaiu no repertório autoral pelo tom épico do arranjo de Luiz Cláudio Ramos e, sobretudo, pela letra incisiva em que o compositor versa, do ponto de vista da preconceituosa classe média carioca, sobre o alvoroço que se instala quando jovens do subúrbio aportam nas praias da zona sul da partida cidade do Rio de Janeiro (RJ), vindos em ônibus lotados, encarados como navios negreiros aos olhos dos policiais racistas.

Dois anos depois, As caravanas ganha registro fonográfico que rivaliza com a gravação original de Chico Buarque. Esse registro se encontra em Caravana Refugi, segundo álbum da Orquestra Mundana Refugi, recém-lançado pelo selo Circus.

O arranjo de Carlinhos Antunes – mentor dessa orquestra que integra músicos brasileiros, imigrantes e refugiados de países como Congo, Irã, Síria, Tunísia, China, Guiné e Palestina – sublinha o sentido social dos versos de Chico ao andar por caminhos próprios sem se afastar totalmente da orquestração original de Luiz Cláudio Ramos, sobretudo na parte final, como creditado na ficha técnica da faixa na edição em CD do álbum Caravana Refugi.

Com polifonia vocal que simula a balbúrdia sugerida pela letra, o arrojado arranjo de Carlinhos Antunes também brilha pela inserção de vozes que evocam o universo muçulmano – nominado por Chico Buarque na letra – e pela citação de trecho de Deus lhe pague (Chico Buarque, 1971), acréscimo sagaz que, de acordo com Carlinhos Antunes em texto da contracapa interna do CD, fez o próprio Chico parabenizar o arranjador pelo que teria chamado de “grande sacada”.

A bela voz solista da gravação de As caravanas é a da brasileira Paula Mirhan. A mesma Paula Mirhan se junta à voz palestina de Oula Al-Saghir na interpretação de pot-pourri com músicas do repertório de Milton Nascimento.

Aberto em ritmo de tango, o pot-pourri encadeia Encontros e despedidas (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1981) – música por demais simbólica para orquestra que abarca refugiados – com trecho de Milagre dos peixes (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1973) e com A lua girou (tema tradicional em adaptação de Milton Nascimento, 1976).

Surgida a partir da Orquestra Mundana, big-band paulistana então já existente há 15 anos com músicos de diversas localidades, a Refugi gravou ao vivo o primeiro álbum há dois anos, registrando show feito em agosto de 2017.

O álbum Orquestra Mundana Refugi foi lançado em julho de 2018, pondo em evidência essa orquestra resultante dos fluxos migratórios nem sempre espontâneos e cada vez mais frequentes no esfacelado mundo contemporâneo.

Um ano depois, o disco sucessor Caravana refugi reedita a pluralidade étnica da orquestra em repertório que concilia sotaques e latitudes, partindo da garbosa caravana de Chico Buarque.

FONTE : G1

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