PSICÓLOGA AVALIA IMPACTOS DA QUARENTENA

Por Célia Ribeiro

Segundo a psicóloga clínica Maristela Colombo, “o Covid 19 mudou a forma de viver. O mundo não vai voltar a ser mais como era antes. Essa é a questão crucial que muitas pessoas não querem entender. Daqui pra frente, tudo será diferente e vai depender de cada um como será esse futuro. Estamos tendo que nos adaptar rapidamente a viver de um jeito que não sonhávamos e não imaginávamos”.  Chefe da Seção Técnica do Serviço Psicossocial Clínico do Tribunal de Justiça – Unidade Marília, ela é Mestre em Ciências Sociais, psicodramatista e tatadramatista terapeuta EMDR.

1. Já estamos há quase 2 meses em quarentena. Vemos muitas pessoas reclamando do isolamento. O que essa mudança provoca no psicológico das pessoas?

O termo Isolamento Social provoca insegurança, ansiedade e muito medo do que está por vir. O desrespeito a essa orientação tem a ver com a negação de algo tão devastador como é o coronavirus. O Covid 19 mudou a forma de viver, o mundo não vai voltar a ser mais como era antes. Essa é a questão crucial que muitas pessoas não querem entender. Daqui pra frente, tudo será diferente e vai depende de cada um como será esse futuro. Estamos tendo que nos adaptar rapidamente a viver de um jeito que não sonhávamos e não imaginávamos. Vivemos, atualmente, em um mundo que nos incentiva a todo o momento a vivermos fora de casa e fora de nós mesmos. Boa parte do nosso tempo passamos em lugares que não nos pertencem, que não são caracterizados pela marca da nossa identidade pessoal. O convívio social em espaços coletivos exige a supressão momentânea de boa parte do que somos, de como pensamos e sentimos.
A tecnologia e as redes sociais com seu mundo inovador, rápido e fluido, abriram as portas para que o ser humano pudesse ser visto e pudesse se expressar a partir das mídias de uma forma nunca vista. Passamos a querer falar e não mais ouvir. Falar coisas sem passar pelo crivo da boa educação e das regras sociais de convivência. Essa forma de se comunicar acentuou ainda mais a questão do ser humano não lidar com seu sofrimento e suas frustrações, dando vazão a se criar muitas imagens fantasiosa de si mesmo para colocar nos seus perfis e assim obter muitos likes.
O Coronavirus – Covid 19 trouxe uma mudança dos valores estabelecidos pela sociedade até então. De repente o ser humano se vê privado da sua liberdade, tão cara a ele. Isolamento social, ficar em casa, higiene máxima. Evitar aglomerações. 
O ficar em casa, ao invés de ser visto como algo prazeroso, pois casa simboliza abrigo, virou prisão. Olhar para a casa tem o mesmo significado de olhar para dentro de si mesmo. O ficar em casa fez com que, inicialmente, as pessoas começassem a fazer limpezas, arrumar gavetas, cozinhar, varrer, lavar, etc. e isso passou a ser um castigo e não algo agradável. 
Todo mundo reclamava de não ter tempo, mas, porem quando algo da natureza do Covid acontece, as pessoas se perdem de si mesmas. As relações afetivas, sociais e familiares mudaram. Ter que reaprender a conviver com os membros da família, dividir espaços e tarefas ficou muito complicado. Reorganizar o mundo, entender o que está acontecendo, aceitar tantas mudanças em pouco tempo fica muito difícil para aquelas pessoas que não tinham espaços, internos e externos, para si mesmas.

2. Quem sofre mais? Crianças, adultos ou idosos. E por que?

A pandemia traz muita dor tanto para crianças quanto para adultos e idosos. Porém, o adulto e o idoso podem entender, cognitivamente falando, melhor todas essas situações de isolamento. Os não abraços, os não beijos e os não toques. O uso de máscaras, o tirar sapatos para entrar em casa, o lavar as mãos. Isso nos assusta. Tem idoso que não aceita bem o limite imposto para protegê-los e se irrita por não poder sair. Mas para acriança que precisa se adaptar a essas mudanças isto pode causar uma certa irritabilidade, uma dificuldade de expressas sentimentos que ela mesma ainda não entende. Uma dificuldade de entender que não pode mais brincar com o amigo, ir ao parque, ir à escola. As crianças têm muita energia e precisam gastá-la. É o momento do adulto inventar brincadeiras e aproveitar para estar próximo às crianças e com isso próximo a sua criança interior.

3. Como amenizar os efeitos do isolamento?

Pensar um pouco sobre o s caminhos que fazemos, sobre as decisões que tomamos. Precisamos nos conhecer para conhecer o outro. Estamos tendo a oportunidade de aprender a empatia, a espontaneidade, a criatividade. Estamos tendo que fazer diferente. Transformar essa situação é o melhor caminho para os efeitos contra o isolamento. Olhar para o seu coração, olhar para o que está sentindo, se permitir ser sem as máscaras que criamos para nós mesmos a fim de suportar a realidade, apesar das máscaras que temos que usar em função da pandemia.
Olhar de uma forma diferente para nossa casa, o nosso abrigo. Olhar para dentro de nós como se fôssemos o nosso templo. Mudar a forma como organizamos nossa casa. A casa é um espelho da percepção que temos de nós e do mundo num determinado momento da nossa vida. A casa oferece pistas valiosas dos valores e crenças que nos caracterizam num nível mais profundo, ela espelha tanto nossos comportamentos atuais quanto traços mais permanentes da nossa personalidade. A casa pode oferecer um espaço de reconhecimento da nossa identidade, em especial para nós mesmos. Veja, temos a oportunidade de voltar a enxergar a casa, as pessoas que nela habitam. Voltar a olhar nos olhos daqueles que estão ao nosso lado. Brincar, pisar a terra, cozinhar, costurar, fazer com as mãos. Fazer com amor.

4. Outras considerações.

Quero deixar uma reflexão por meio do poema “MUDE” de Edson Marques que é muito válida para esse momento   “Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade. Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa. {…}  “O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda! Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!”    https://www.pensador.com/mude_mas_mude_devagar/

Fonte: Jornal da Manhã – edição de 10/05/2020

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *