Reação exagerada? Os (poucos) sinais de alívio para a Petrobras após a derrocada de 20% da ação na segunda-feira

Sinais de interferência política com impacto no resultado e até mesmo levando a questionamentos sobre a política de dividendos, valor de mercado evaporando R$ 102 bilhões em apenas duas sessões e muitas dúvidas sobre o futuro da empresa.

Em poucos pregões, as ações da (PETR3;PETR4) passaram de um investimento promissor em meio ao processo de se alinhar às melhores práticas de governança corporativa e de realizar desinvestimentos, focando no pré-sal, para mais um case controverso de uma estatal sujeita a todo momento a riscos de ingerência política.

O ápice se deu no final da última semana, com efeitos que reverberam até a presente data e devem ainda durar um longo tempo, após as críticas do presidente Jair Bolsonaro ao reajuste de combustíveis anunciado pela estatal na semana passada, sendo seguido pela indicação de um general da reserva, Joaquim Silva e Luna, para a presidência da companhia, para substituir Roberto Castello Branco, um nome respeitado pelo mercado.

A partir daí, um grande número de casas de análise revisou a recomendação dos papéis da companhia para equivalente à venda ou simplesmente suspendeu as avaliações até os próximos eventos, a serem acompanhados de perto pelos investidores.

Dentre as poucas casas de análise que ainda reiteraram a recomendação de compra, esteve o UBS, que reforçou a sua avaliação em relatório divulgado nesta terça-feira, em relatório chamado “quando os números falam mais alto do que as palavras”.

Na avaliação dos analistas Luiz Carvalho e Gabriel Barra, a forte queda de cerca de 20% das ações na véspera foi exagerada, sendo uma reação desproporcional ao fluxo de notícias recentes e, por isso, reiteraram a agora recomendação de contrassenso de compra.

Os analistas do banco suíço veem a empresa muito próxima da paridade de importação de combustível, com expectativa para entregar cerca de 35% de rendimento de fluxo de caixa livre em 2021, negociada com desconto e mais protegida em uma perspectiva de governança corporativa do que anteriormente. “A assimetria para nós neste ponto parece enviesada para o lado positivo”, avaliam Carvalho e Barra.

Os analistas apontam para algumas hipóteses que podem justificar essa reação a princípio exagerada, avaliando que as “assombrações do passado” estão afetando as percepções dos investidores.

Na avaliação do UBS, a estrutura regulatória atual da Petrobras é muito diferente em comparação com 5 a 10 anos atrás, apontando que agora houve praticamente uma reação imediata da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e escritórios de advocacia manifestando o direito de ajuizar ação coletiva contra o governo brasileiro, além da Justiça do estado de Minas Gerais pedindo ao governo federal para explicar a mudança do CEO.

“Acima de tudo, a Lei Federal da Responsabilidade das Estatais e estatutos da empresa mais rígidos sugerem que mudanças potenciais que podem prejudicar os melhores interesses da empresa e dos minoritários são mais um desafio hoje, com um custo político potencialmente mais alto”, destacam, apontando que a reunião do Conselho de Administração, que tem que referendar a escolha do novo nome do comandante da empresa (processo este estabelecido durante o governo Temer), será um marco importante.

Atualmente, o grupo de conselheiros da Petrobras é formado por onze pessoas: sete representantes da União, três dos minoritários e um dos funcionários da estatal.

Vale destacar que, por ter maioria, normalmente os nomes indicados pelo governo são aprovados pelo Conselho, mas dessa vez existem questões que vão além da interferência do governo na empresa. O principal ponto questionado por Bolsonaro é a política de preços dos combustíveis e, apesar dele afirmar diversas vezes que não irá alterar esse ponto, ficou claro que o reajuste da gasolina e diesel foi o estopim para o pedido de troca de comando da empresa. Diante disso, apesar da maioria ser de membros representantes da União, muitos nomes do Conselho são ligados ao mercado.

Com isso, surgiram rumores no fim de semana de que o Conselho de Administração poderia pedir uma renúncia coletiva. Contudo, em entrevista à GloboNews, Marcelo Mesquita, membro do Conselho, disse não acreditar numa renúncia coletiva do colegiado em protesto à interferência do presidente Bolsonaro na troca do comando da estatal. Segundo o Credit Suisse, a notícia é positiva, já que uma disrupção no Conselho poderia enfraquecer os mecanismos de governança da companhia e abrir mais espaço para interferências.

O Conselho se reúne hoje, mas não é esperado que vote a indicação do novo CEO nesta data, mas sim o pedido do governo federal para realizar a Assembleia Geral Extraordinária para discutir os próximos passos da companhia (aí sim posteriormente votando a mudança do presidente).

Contudo, segundo informações do Valor, até ontem à noite ainda não estava claro se os conselheiros vão acatar o pedido da União e chamar a assembleia. O jornal apontou que os conselheiros da Petrobras estão tomando medidas para se protegerem juridicamente, uma vez que eventuais responsabilidades são imputadas aos CPFs dos onze integrantes do conselho. A tendência é que haja distintas correntes de pensamento entre os conselheiros em relação à convocação da assembleia.

Se for convocada assembleia e o nome de Joaquim Silva e Luna for aprovado, os analistas do Bradesco BBI (que no fim de semana cortaram a recomendação para a ação para equivalente à venda) destacaram uma fala positiva do possível novo CEO em nota desta terça-feira.

Em entrevista à Rádio Bandeirantes, Luna falou sobre a possível criação de um fundo de compensação dentre os mecanismos para conter o grau de reajustes. Ele mencionou sua experiência em Itaipu, onde segundo ele buscava-se manter sempre um volume de água no reservatório que assegurasse o cumprimento dos contratos da usina, o que funcionava como um “colchão regulador”.

“Um colchão numa entidade como a Petrobras, eu imagino, estou imaginando alto aqui, seria alguma coisa como um fundo, um fundo regulador”, disse Luna à Bandeirantes, falando em tese e defendendo que o mecanismo poderia garantir maior previsibilidade para os consumidores.

Não há mais detalhes de como seria o mecanismo, mas a lógica poderia ter algum paralelo com um programa de subsídios do governo brasileiro a combustíveis no passado, criado para evitar perdas para a Petrobras. Em 2018, após a greve dos caminhoneiros por conta das fortes altas do diesel, o governo Michel Temer anunciou um programa de subvenções que pagou à Petrobras e outras empresas bilhões de reais para que não houvesse repasse das flutuações de preços.

A iniciativa teve, entre outros objetivos, garantir que a estatal não sofresse perdas por não seguir parâmetros como o barril de petróleo, conforme estabeleceu o estatuto da empresa alterado na época pela gestão do então presidente da Petrobras Pedro Parente.

De acordo com Vicente Falanga e Gustavo Sadka, analistas do BBI, se a ideia do fundo for para frente, poderia acrescentar dois pontos positivos na tese que faria com que os analistas voltassem a ter uma visão construtiva para a companhia: (1) a criação ou uma política de preços racional, que evitaria perdas para a empresa, e (2) ventos favoráveis para apoiar a continuação do processo de venda da refinaria (ponderando se isso for algo que o governo ainda deseja fazer).

Os analistas apontam que um mecanismo semelhante é usado na Colômbia e tem funcionado muito bem. Contudo, eles apontam que uma questão chave é: o Brasil tem espaço fiscal hoje para injetar capital neste fundo?

O país estaria abrindo mão de receitas significativas de royalties para esse propósito em especial. “Por exemplo, hoje, para financiar os preços da gasolina e do diesel 10% abaixo da paridade, o governo precisaria gastar cerca de R$ 15 bilhões por ano, enquanto as receitas de royalties variaram de R$ 40 bilhões a R$ 60 bilhões nos últimos anos (30%). De qualquer forma, se essa iniciativa avançar, essa seria uma solução racional e estrutural para o dilema do diesel no Brasil”, avaliam.

Vale destacar ainda que, na véspera, a Safra Corretora, que também reiterou a recomendação de compra para os ativos na véspera, avaliou que a empresa é diferente do que era em anos anteriores, quando tinha um programa de investimentos ambicioso e amplo de cerca de US$ 40 bilhões por ano e uma tímida iniciativa de desinvestimento. Agora, “com um gasto de capital muito menor atualmente, de cerca de US$ 10 bilhões por ano, e um foco maior em ativos do pré-sal, acreditamos que a possibilidade de um forte aumento da dívida desta vez é menor”, apontam os analistas.

O que pode dar errado?

Mesmo com essas sinalizações positivas – cenário de maior governança corporativa, renúncia descartada dos membros do Conselho, falas de Silva e Luna e balanço mais forte  do que anos atrás – mesmo os analistas mais otimistas destacam pontos a serem monitorados de perto pelos investidores.

O UBS vê três riscos principais para a tese do banco na estatal: i) a alta acentuada dos preços do petróleo e do dólar, pressionando fortemente o balanço da companhia; ii) uma mudança na estratégia do processo de desinvestimento;
e iii) o acionista controlador forçando a própria Petrobras a subsidiar os preços dos combustíveis.

No primeiro caso, levando em consideração uma perda de US$ 10 o barril na paridade de importação, assumindo um volume de 500 mil por dia, o impacto anual seria da ordem de US$ 1,8 bilhão, ou cerca de 4% do Ebitda. O segundo ponto é visto como crítico pelos analistas, mas eles destacam não terem visto sinalizações sobre esse movimento. Já sobre o terceiro ponto, os analistas avaliam que o estatuto da Petrobras e a Lei de Responsabilidade das Estatais deve proteger a empresa.

Já a Levante Ideias de Investimentos aponta que, mesmo após a queda de cerca de 27% das ações em dois dias, a ação parece estar barata e tem potencial para proporcionar lucro no curto prazo. “No entanto, nossa avaliação é que a indefinição ainda é muito grande não só em relação à estatal, como também em relação às políticas de preço do setor, o que eleva bastante o risco de se investir nas ações da companhia. Dessa forma, nossa recomendação é clara: no momento, evite correr o risco de Petrobras”, avalia.

Segundo os analistas da casa de research, além da indefinição sobre como vai ficar o Conselho de Administração da empresa e os possíveis novos atropelos na governança corporativa, outras atitudes reforçaram o receio com a companhia. “Na segunda-feira (22), o presidente Jair Bolsonaro publicou um decreto obrigando os postos de gasolina a alterar a maneira de divulgar os preços dos combustíveis, após ter chamado de ‘caixa preta’ a formação de preços no setor. Essas atitudes e declarações indicam uma preferência pela mão pesada do Estado em lugar da mão invisível do mercado. E esse foi, continua sendo e sempre será o principal risco das empresas estatais no Brasil”, avalia a Levante.

As ações da Petrobras têm uma sessão de recuperação nesta terça-feira, com os ativos chegando a superar os 10% de alta no intraday (os ativos PN fecharam em alta de 12,17%, a R$ 24,06) – contudo, a volatilidade deve ser a palavra de ordem para a companhia no curto prazo.

FONTE : INFOMONEY

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *