Sobre a água do Rio e nosso sistema de defesa imunológico

A minha vizinhança está intranquila com a questão da água que sai das torneiras, fornecida pela Cedae. Ouvi tantos comentários pelas calçadas, na caminhada diária, que acabei me deixando contagiar.

Embora use filtro e a minha água não esteja com aparência turva, lá fui eu no domingo (12) ao supermercado comprar água mineral. E é como dizem aqueles que entendem de crises e mercados: sempre haverá quem lucre nas adversidades. Percorri três estabelecimentos e não tinha água. Comprei aqui na esquina, na padaria, por um preço absurdo.

Como não podia deixar de ser, fiquei irritada. Primeiro, com o fato de ter me deixado contagiar pela reação de todos. É um estranho sentimento este, de ser achatada pelas opiniões. Mas é quase impossível não se deixar afetar. E se eu pegar uma doença, ficar arriada com enjoos, vômitos e diarreia, como algumas pessoas me relatam que ficaram? Vou me enfurecer mais ainda comigo mesma.

reciso de informações para sair deste lugar do contágio e formar, eu mesma, com convicção, a minha conduta no caso. A reportagem do colega Emanuel Alencar, publicada no site do “Correio da Manhã” conta que houve um desmonte na Cedae, promovido pelo atual governador Wilson Witzel.

Pessoas foram demitidas, justamente aquelas que estariam encarregadas de monitorar e garantir a qualidade da água distribuída para a população. E ninguém as substituiu, pelo menos até agora. Preocupante mesmo.

A nota da Cedae fala sobre geosmina, um desses nomes que são devidamente ignorados pela população até o momento em que aparecem nas notícias. Agora, quase todo mundo sabe que geosmina é uma substância orgânica produzida por algas e que estamos tomando água com geosmina.

Numa primeira nota, a companhia disse que não tinha problema nenhum, mas hoje ela já está dizendo que vai aplicar carvão ativado pulverizado no início do tratamento da água que nos é servida na torneira. O seguro morreu de velho.

A segunda etapa de minha investigação levou-me à reportagem de Diego Haidar para o RJ1. Ele sobrevoou os principais mananciais que abastecem a estação de tratamento do Guandu. E as notícias não são nada boas, tanto quanto não são, também, nenhuma novidade.

São rios poluidíssimos que chegam ao Guandu. Quer seja por descaso da população que mora à beira, quer seja por absoluta incompetência dos governantes. Mesmo depois de receberem, pelo voto, a tarefa de administrar a vida dos cidadãos, muitos desprezam a saúde, um bem maior. E não investem na limpeza dos rios.

Mas, de novo, infelizmente, esta situação não é nova. Há muito se sabe que o tratamento que precisa ser feito com a água que chega ao Guandu é um processo complicado, exige muita química. Segundo a própria Cedae, são gastos diariamente, para este fim, 140 toneladas de sulfato de alumínio; 30 toneladas de cloreto férrico; 15 toneladas de cloro; 25 toneladas de cal virgem e dez toneladas de ácido fluossilícico.

Um estudo feito pelo WRI Brasil no ano passado mostrou alternativa a este pacote químico: a restauração de três mil hectares de florestas na bacia do Guandu pode reter parte do sedimento, fazendo com que a água chegue mais limpa na Estação de
Tratamento. Além de ser mais econômico (deixariam de pagar R$ 156 milhões ao ano), também ajudaria bastante à saúde da população. Mas nenhum gestor se interessou pelo estudo.

De qualquer forma, existe a estação, lá é feito este trabalho, e a água que sai de lá, pelo menos até hoje, tem sido consumida sem grandes sobressaltos. É claro que há aqueles que evitam beber água filtrada, justamente por causa da química. Eu os respeito, às vezes me dá vontade de seguir, mas desisto no meio do processo.
Comprar água mineral é um gasto a mais que não está previsto no orçamento familiar.
Sendo assim, o que consegui apurar na minha investigação particular, que estou aqui compartilhando com vocês, leitores, é que nada mudou muito na essência do processo. Houve sim uma invasão de geosmina, mas logo foi detectada, fizeram testes e estão tratando – com mais química.

Em alguns lugares, porém, se a água que sai da torneira estiver com algum gosto, algum cheiro e turva, tem que ligar o alerta. É bom lembrar sempre aquela velha lição que se aprende na escola: água é insípida, inodora e incolor.

Já que falamos sobre saúde, perguntei ao médico homeopata Mauricio Tatar se nosso sistema imunológico, uma sofisticada rede de defesa, consegue se livrar das agressões das algas na água.

“Sempre consegue, sempre funciona, mas é o mesmo que colocar o inimigo dentro de casa, dentro do seu próprio corpo. Aí fica mais difícil, a reação da defesa terá que ser intensa e, por isto, desagradável”, disse-me ele.

No livro “Imune – a extraordinária história de como o organismo se defende das doenças”, escrito por Matt Richtel, ganhador do Pulitzer, fica bem claro que cada um de nós precisa conviver com bilhões de células bacterianas, que vivem dentro do nosso corpo sem causar danos. Mas 1% pode nos deixar doentes.

“Cada um de nós desenvolve uma relação funcional com nosso ambiente. É um tipo de contrato social com as bactérias ao nosso redor, sendo este altamente personalizado e variável”, escreve Richtel.

Se cada um de nós desenvolve uma relação com o meio ambiente, com as bactérias, então é justo pensar que podemos influenciar no funcionamento deste extraordinário mecanismo de defesa, que Richtel considera “a mais sofisticada rede do mundo”.

Muito baseado na teoria da medicina chinesa, Maurício Tatar diz que para se falar em imunidade é preciso, antes, falar sobre o “primeiro cérebro, o coração”.
“Sentimentos ruins, traumas, mágoas, ressentimentos, medo, tudo isso pode causar doenças. A raiva, por exemplo, deixa a pessoa cega, e ela vai reagir de forma não boa. A mudança de padrão mental é fundamental: ter atitude, fazer diferente, ter vontade de viver ações positivas”, explicou-me ele.

Sendo assim, minha ação positiva, por ora, será continuar investindo em água mineral. Não quero dar trabalho ao meu sistema de defesa. Depois do carvão ativado que a Cedae está acrescentando na limpeza, pode ser que tudo volte ao normal. Na verdade, a um normal inevitável, ao qual nos acostumamos. Melhor seria se os rios fossem limpos e a água que chegasse à Estação de Tratamento precisasse de menos reações químicas para chegar às nossas torneiras.

FONTE : G1

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *