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Coalizão mobiliza juventude historicamente inviabilizada do Acre e segue legado de Chico Mendes

Por Coalizão Rede Comunic(A)tiva de Jovens para WWF-Brasil

Chico Mendes deixou uma carta aos jovens na qual dizia que em 6 de setembro do ano de 2120 haveria uma revolução liderada pelas juventudes de todo mundo. Hoje, 36 anos depois do seu assassinato e faltando 95 anos para a revolução citada na carta, o que vemos faz de Chico além de tudo, visionário. 

Foi com esse espírito de continuidade e resistência que o Programa Vozes pela Ação Climática Justa (VAC) chegou ao Comitê Chico Mendes, pouco tempo depois de sua formalização como organização. Fundado na noite em que Chico foi assassinado, o Comitê nasceu com a missão de manter vivo seu legado. No entanto, foi somente em 2021 que a instituição se formalizou juridicamente, buscando fortalecer sua atuação na defesa dos territórios e dos povos da Amazônia. 

Nesse momento de virada, o VAC se aproximou. E o que antes era semente, começou a ganhar estrutura. A primeira captação de recursos do Comitê Chico Mendes foi feita por meio desse encontro. A partir daí o Comitê passou a atuar com mais força na Reserva Extrativista Chico Mendes, em especial junto às juventudes que vivem e resistem dentro dela. 

Dessa parceria do Comitê e VAC, nasceu a Rede ComunicAtiva de Jovens, coalizão que se tornou essencial na mobilização de uma juventude historicamente invisibilizada. Afinal, muitos preferem acreditar, ou fingem acreditar, que não há gente vivendo na floresta. Mas há. E essa juventude carrega o peso e a potência de sustentar o futuro do território. Mesmo sem acesso ao mínimo, como uma educação de qualidade, ela resiste. 

Foi a partir dessa mobilização no território com os encontros da Rede ComunicAtiva, das trocas, formações e conexões entre as realidades, que surgiu o Coletivo Varadouro. Com o lema “Juventude unida pela Resex viva”, o coletivo nasceu após a Semana Chico Mendes, realizada em dezembro de 2022. Jovens que não apenas existem, mas resistem, decidiram caminhar juntos. 

Desde então, o Comitê se fortaleceu. Passou a atuar também nas agendas de justiça climática, aprovou mais de oito projetos de médio porte, firmou parcerias, ocupou espaços. Em conjunto com o Varadouro, assumiu uma cadeira no Conselho Deliberativo da Resex Chico Mendes, participou de articulações nacionais e levou sua voz a espaços internacionais, como as Conferências do Clima (COPs). 

Entre as experiências que nasceram dessa caminhada está o Projeto Fluentes, uma parceria entre o Comitê e a Correnteza. Com o apoio do VAC, o Fluentes ofereceu aulas de inglês para 15 jovens extrativistas e urbanos do Acre, ao longo de dez meses de encontros remotos e intensos. 

Mas o Fluentes não é um curso de idioma. É uma experiência de afirmação e escuta. Uma construção coletiva em que o inglês se torna ferramenta, não para “sair da floresta”, mas para levar a floresta para os lugares onde as decisões são tomadas. 

Nas aulas, os participantes aprenderam vocabulários que nomeiam suas lutas, seus territórios, suas feridas. Discutiram os caminhos da incidência política, entenderam as estruturas que sustentam a agenda climática internacional e trocaram entre si os aprendizados que carregam da vida, das comunidades, dos enfrentamentos. Tudo isso enquanto fortaleciam sua voz para o mundo. 

O Fluentes parte do princípio de que o centro da formação não é a língua, mas quem aprende. Que ninguém deve abrir mão da própria identidade para dialogar com o mundo. Que ocupar espaços internacionais exige técnica, mas exige também raiz. E essas juventudes têm de sobra. 

Ainda estamos longe do que queremos. A Resex Chico Mendes continua ameaçada, a floresta segue sendo explorada, e a violência política não arrefece. Mas quando olhamos para os caminhos abertos, e para quem caminha, há uma certeza que não nos abandona: A revolução anunciada por Chico Mendes já começou, e nela repousa o futuro da floresta, falado em muitas línguas, mas sobretudo na língua do território. 

Em julho, mais uma semente foi plantada: nos dias 26 e 27, jovens do Coletivo Varadouro se reuniram na comunidade Dois Irmãos, dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes, para uma imersão formativa que conectou o território às pautas globais. A chamada “Pré-COP” marcou não apenas o encerramento simbólico de um ciclo do projeto VAC, mas também o início de uma nova marcha rumo à COP30, guiada pelos passos firmes da juventude extrativista. Um momento de escuta, criação coletiva e articulação política, com os próprios jovens conduzindo o debate sobre justiça climática e os efeitos reais das mudanças do clima sobre seus modos de vida. Uma construção que reafirmou: o futuro da floresta já caminha e tem voz própria. 

Sobre o VAC 

O Programa Vozes pela Ação Climática Justa (VAC) é uma aliança global idealizada por seis organizações da sociedade civil (WWF, Hivos, Fundación Avina, SouthSouthNorth (SSN), Akina Mama wa Afrika e Shack Dwellers International (SDI)) e financiada pelo Ministério das Relações Exteriores da Holanda, com ações em sete países do Sul Global. Além do Brasil, VAC também está presente na Bolívia, Paraguai, Tunísia, Quênia, Zâmbia e Indonésia.  
 
No Brasil, o Programa é coordenado por Fundación Avina, Hivos, Instituto Internacional de Educação do Brasil – IEB, WWF-Brasil e Fundo Casa, tendo apoiado, desde 2021, mais de 80 organizações, movimentos e coletivos, articuladas em 15 coalizões.

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