Brasileiros da terceira idade: dramas e oportunidades em Toyota e Oizumi
Brasileiros da terceira idade é o tema da edição de terça-feira (19), da série “Dekasseguis 35 anos” do jornal Asahi, na sequência da matéria sobre um trabalhador verde e amarelo de 80 anos.
Em maio de 2024, um grupo chamado “Homi no Samurai” (Samurais do Homi em português) foi formado no Complexo Habitacional Homi, na cidade de Toyota (Aichi). Seus membros são cerca de 10 pessoas com idades entre 60 e 80 anos.
São nipo-brasileiros da terceira idade que perderam seus empregos, mas se tornaram membros do Centro de Recursos Humanos Silver (ルバー人材センター, lê-se Silver Jinzai Center) da cidade. É a esperança de encontrar uma saída para continuar trabalhando na terceira idade.
A ONG Torcida, que oferece aulas de japonês para estrangeiros no Homi Danchi e oferece apoio ao aprendizado, firmou parceria com o Centro de Recursos Humanos Silver no mesmo ano para realizar um “Curso de Japonês para Corte de Grama”. Lá se ensina o japonês necessário para o uso de cortadores de grama e na prevenção da insolação. Os participantes da terceira idade formaram grupos para trabalhar arduamente no corte da grama do complexo residencial Homi ou Homi Danchi.

Brasileira Valéria à esq. e outros dois brasileiros na jardinagem (Asahi)
O salário é de 1,3 mil ienes a hora. O objetivo é “proporcionar renda suficiente para viver, mesmo sem aposentadoria“. Eles também cortam grama em escolas e parques.
A brasileira Valéria Sakaguchi Torsi, de 63 anos, veio para o Japão com o marido nikkei em 1992. É uma das integrantes que fez o curso e agora corta grama. “Estou muito satisfeita, mas nunca imaginei que um futuro assim me aguardava”, lembra ela.
No passado estava acostumada a trabalhar através de empreiteiras, em fábricas de autopeças. Às vezes, saía de casa às 5h e trabalhava até as 23h. No entanto, foi demitida após completar 60 anos.
“Se eu tivesse pago o seguro social (shakai hoken) quando vim para o Japão, estaria recebendo aposentadoria e vivendo uma vida confortável”, pontua.
Pacote do shakai hoken inclui aposentadoria
De acordo com o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar Social do Japão (MHLW), o seguro social (shakai hoken) se aplica independentemente da nacionalidade. No entanto, ela não se lembra de que, naquela época, a empreiteira tenha lhe ensinado sobre isso e o bônus. “Mesmo trabalhando tanto, eu nem sabia sobre os meus direitos trabalhistas”, relembra. Muitos daquela época não eram informados sobre esse direito.
Ela quer enviar dinheiro para o filho e o neto doentes no Brasil, mas a demanda por serviços de corte de grama varia de acordo com a estação, assim, frequentemente atrasa o aluguel, dificultando o seu sustento no Japão.
Desemprego dos brasileiros na terceira idade
Desde 1990, muitos imigrantes japoneses e seus descendentes que chegaram ao Japão como dekasseguis trabalharam em fábricas, seja de autopeças ou bentô, por meio das empreiteiras.
Passados 35 anos, um número crescente perde seus empregos com as demissões. Muitos não podem receber aposentadoria por não terem recolhido, ou têm direito a apenas uma pequena quantia.
A representante da ONG Torcida, Kiyoe Ito, 68 anos, afirma: “A realidade é que os trabalhadores dekasseguis não foram informados sobre a previdência social (shakai hoken) e não foram inscritos”.
Ele está explorando maneiras de criar novos empregos para pessoas da terceira idade, como capinar e podar, que podem ser feitos até mesmo no inverno. “Receber as pessoas significa assumir uma vida. Não podemos simplesmente abandoná-las”, afirma, se referindo quando o Japão abriu as portas para empregar a mão de obra dos nikkeis brasileiros naquela época.
O recomeço na terceira idade em Gunma
Em junho de 2020, o Centro de Apoio Comunitário Restart, que oferece abrigo temporário para os estrangeiros que perderam seus empregos ou casas, foi inaugurado no Brazilian Plaza, um antigo shopping center na cidade de Oizumi (Gunma).
Nesse abrigo há quartos simples, divididos com madeira compensada, no segundo andar da instalação. São fornecidas refeições para cerca de 40 brasileiros que chegaram à linha da pobreza. Além disso, o centro fornece ajuda para o recomeço.
Raimundo Satoru Shinohara, 71, sansei (terceira geração), é uma das pessoas da terceira idade que estão hospedadas nesse centro. Ele era funcionário público no Brasil, mas veio para o Japão em 1997 para “ganhar dinheiro para abrir um negócio imobiliário”. Trabalhou em diversos empregos, incluindo fábricas de autopeças, lavagem a seco e eletrodomésticos. Agora, na terceira idade, ganha a vida trabalhando de arubaito em demolições. “Mesmo que eu queira voltar para o Brasil, não tenho dinheiro para comprar uma passagem”, diz ele, perplexo.
Em outubro de 2024, o centro de apoio alugou um terreno na cidade de Maebashi (Gunma). Foi batizada de “Fazendinha” e oferece oportunidade de trabalho para os estrangeiros que vivem no centro. Alguns da terceira idade vão cerca de três vezes por semana para cultivar hortaliças e frutas, que são vendidas na “estação” da estrada, michi no eki em japonês.
Hideyoshi Hashimoto, 61, nikkei brasileiro que administra o Brazilian Plaza, disse: “Em vez de tratar os estrangeiros mais velhos como descartáveis, espero que o governo proponha maneiras de dar a eles outros empregos, como na agricultura ou nos cuidados aos idosos (kaigo)”.

Hashimoto à esq. e os trabalhadores na Fazendinha (Asahi)
FONTE: PORTAL MIE






















