Morte solitária e triste dos dekasseguis e o abandono familiar
A morte solitária refere-se ao falecimento de alguém sem a presença ou conhecimento de outras pessoas, muitas vezes após um período de isolamento social. No Japão, o fenômeno é conhecido como “kodokushi” e tem sido associado ao aumento da população idosa e de lares unipessoais.
Esse lamentável fenômeno se estende às comunidades brasileira e peruana. É o que apurou a série “Dekassegui 35 anos” do jornal Asahi.
“Tem mau cheiro”, foi o que disseram aos funcionários da associação dos moradores do Homi Danchi, na cidade de Toyota (Aichi), em maio de 2024. Foram para o local, onde encontraram um homem caído, com sinais de ter tossido sangue. Era um nikkei brasileiro, na faixa dos 60 anos, com um problema na perna, por isso usava bengala. Estava morto havia aproximadamente duas semanas. Foi uma morte solitária.
Ele adorava conversar e sempre carregava uma câmera como hobby. Os moradores lamentaram tê-lo isolado durante sua vida e de não terem percebido seus sinais de pedido de socorro. “Quando seu estado piorou, não poderíamos ter feito algo?”, se questionaram.
A triste morte solitária (kodokushi) tem como causas o envelhecimento, o isolamento social, dificuldades financeiras, divórcio ou afastamento dos familiares.
Outra morte solitária após perda do filho
Em abril de 2023, um nikkei peruano na faixa dos 60 anos que também morava no Homi Danchi foi encontrado morto aproximadamente um mês depois. Foi mais um caso de morte solitária.
Ele havia chegado ao Japão sozinho por volta de 1993, após perder a esposa no Peru, deixando para trás o filho. Trabalhava como dekassegui em uma fábrica de autopeças.
Kiyoe Ito, 68, diretora da ONG Torcida, que dá suporte aos residentes brasileiros e peruanos do complexo habitacional, conhecia o peruano que teve morte solitária.
Ele foi aluno da escola de língua japonesa onde ela lecionava e se lembra que ele falava com alegria sobre o filho, que, naquela ocasião, estava trazendo do Peru.
No entanto, após a chegada, o filho teve dificuldades para se adaptar às escolas japonesas. Tornou-se delinquente e começou a roubar, fugindo de casa logo em seguida e nunca mais se ouviu falar dele.
Filho também teve morte solitária no hospital
Depois, soube-se que foi demitido após um problema no trabalho e se tornou um homeless (sem-teto). Quando a diretora da ONG recebeu uma ligação dizendo que o filho dele estava “na UTI do hospital, lutando pela vida”, ela foi informá-lo sobre sua condição, mas o peruano foi direto em sua resposta: “Se vai morrer, então morra”. Seu filho também teve morte solitária.
A diretora Kiyoe Ito o viu pela última vez por volta de 2021. Relembra que, por acaso, ele passou pelo local onde realizava um evento de distribuição de alimentos para as famílias carentes. Nessa ocasião, ele puxou conversa. Embora parecesse estar com a saúde debilitada, ela nunca imaginou que seria vítima da morte solitária, sem que ninguém no Homi Danchi soubesse.
Muitas vezes, a diretora se pergunta sobre o que mais poderia ter feito por esse pai e pelo filho.
Idosa brasileira sem dinheiro

Homi Danchi (reprodução @ Asahi)
A diretora teve um sentimento semelhante ao ajudar uma idosa brasileira a se candidatar ao programa de assistência social, seikatsu hogo em japonês. Naquela ocasião, não tinha um único iene na carteira e, quando verificou o saldo de sua conta no caixa eletrônico, estava zerado.
A idosa estava desempregada e com os aluguéis atrasados. Quando disse a ela “procure se alimentar bem”, tocando-a, notou que suas costas estavam extremamente magras.
“Senti compaixão. As pessoas que trabalharam para o Japão estão perdendo suas casas. É importante criar um lugar onde essas pessoas isoladas possam se reunir”, pontuou Kiyoe Ito.
Mais de mil consultas de idosos brasileiros
A Associação de Apoio aos Brasileiros no Japão, com sede em Shinagawa, Tóquio, uma organização sem fins lucrativos, apoia os residentes brasileiros com doenças ou lesões graves, como câncer terminal ou derrame cerebral, que desejam viajar para o Brasil.
Pacientes gravemente enfermos devem ser acompanhados por um médico para embarcarem no avião. Médicos e enfermeiros brasileiros se voluntariam para acompanhá-los.
A organização apoia o desejo dos pacientes de passar seus últimos dias com suas famílias no Brasil. No entanto, muitos não podem arcar com o custo da passagem aérea, por isso a arrecadação de fundos é um grande desafio. Em alguns casos, as famílias no Brasil se recusam a acolhê-los, dizendo: “Não podemos aceitá-lo agora”.
Recentemente, a organização tem recebido muitas consultas de idosos. Das aproximadamente 2 mil consultas em geral recebidas em 2024, metade era de pessoas com mais de 60 anos. A organização às vezes recebe consultas do Brasil sobre como cancelar apartamentos e contratos de celular após o falecimento de um parente no Japão.
A diretora Erika Tamura, 49, destaca: “Eles não têm aposentadoria, nem emprego, estão deprimidos e se sentem psicologicamente sobrecarregados. A ansiedade em relação ao futuro está na raiz de tudo”.
FONTE: PORTAL MIE






















