Comunidade: aumento de 4.100% de idosos e local para os restos mortais
Já se passaram mais de 30 anos desde que os nikkeis (pessoas de ascendência japonesa) chegaram ao Japão como dekasseguis para suprir a escassez de mão de obra. À medida que a população envelhece, muitos vivem na pobreza e, consequentemente, enfrentam doenças, além da preocupação sobre o que fazer com os restos mortais.
Os nikkeis, de forma abrangente, são os descendentes dos japoneses que imigraram para o Brasil, Peru e outros países. Os de primeira geração são os chamados isseis, os seus filhos são os nisseis, os seus netos são os sansseis e os de quarta geração são os yonsseis. Atualmente, há também os gosseis, de quinta geração.
Na década de 1990, quando a escassez de mão de obra no Japão se agravou durante a bolha econômica, a Lei de Controle de Imigração revisada foi promulgada, permitiu que descendentes de japoneses e seus cônjuges se estabelecessem e trabalhassem. Muitos descendentes de japoneses vieram do Brasil e de outros países, quando estavam em meio a uma crise econômica, para trabalhar em fábricas de autopeças e bentôs.
De acordo com o Ministério das Relações Exteriores do Japão, existem aproximadamente 5 milhões de descendentes de japoneses no exterior, com o maior número residindo no Brasil, com aproximadamente 2,7 milhões.
Aumento de 4,1 mil por cento de idosos e o problema dos restos mortais
Segundo a Agência de Serviços de Imigração do Japão, há aproximadamente 212 mil brasileiros vivendo no Japão. O número de brasileiros com 65 anos ou mais aumentou 41 vezes, de 361 em 1995 para 14.745 em 2024.
Os residentes permanentes e residentes de longa duração representam 90% do total. Residentes permanentes são o maior grupo, com 116.818, enquanto os residentes de longa duração somam 71.058. Residentes de longa duração têm um período de permanência definido, mas podem renovar seu status e continuar trabalhando.
Como muitos, no começo dessa migração, desconheciam que era necessário se inscrever no shakai hoken, para terem direito à assistência médico-hospitalar e aposentadoria, há muitos idosos nikkeis em situação precária vivendo no Japão.
O jornal Asahi vem publicando uma série – Dekasseguis 35 anos – e, caso ainda não tenha lido, veja as matérias abaixo:
- Vou trabalhar até morrer
- Dramas dos brasileiros da terceira idade
- Morte solitária nas comunidades
- Idosos nikkeis recebem cuidado de helpers peruanas
- Psicóloga brasileira que atua como ponte
Local para que os restos mortais dos dekasseguis descansem em paz

O sacerdote e um grupo de apoio da construção do columbário (Asahi)
Na Ilha Izu Oshima, em Tóquio, há um templo Kannon chamado “Fujimi Kannon”. Foi construído há quase meio século como um memorial para aqueles que emigraram do Japão para a América do Sul e morreram antes que seus sonhos pudessem se realizar. Seu nome vem da esperança de retornar ao Japão e rever o Monte Fuji algum dia.
Um columbário foi construído ao lado do Kannon em setembro de 2024. Foi construído por Osamu Ito, 74, um operário da construção civil, escultor e sacerdote budista residente em Yokohama, e outros, para abrigar os restos mortais dos nikkeis que vieram ao Japão como trabalhadores dekasseguis, tanto do Brasil quanto de outros países. Para Ito, a situação dos imigrantes não era algo que o preocupasse apenas. Ele morou na Amazônia por 10 anos, desde 1982, e frequentemente ouvia histórias de dificuldades por lá.
“Disseram-me que eu poderia viver uma vida boa, mas não havia eletricidade, gás ou água encanada. Fui enganado.” Apesar dessas dificuldades, eles sobreviveram com determinação. Em um esforço para consolar as almas deles, que haviam se tornado corpos abandonados, ele visitava Izu Oshima uma vez por mês para cuidar deles.
Também ouviu dizer que nipo-brasileiros que vieram do Brasil para o Japão como trabalhadores dekasseguis faleceram à medida que envelheciam, ficando sem um local para enterrar seus restos mortais, deixando-os em uma situação difícil. “Até mesmo seus descendentes se tornaram restos mortais não reclamados… Fiquei chocado”, diz.
Newton Tsukamoto, 54, nikkei brasileiro, também trabalhou com Ito na construção do ossuário. Ele veio ao Japão como trabalhador dekassegui aos 19 anos, em 1990, e agora dirige uma construtora. Ele também cortou árvores altas demais para garantir uma boa vista do Monte Fuji. “Eu queria fazer o que estivesse ao meu alcance” por seus ancestrais e compatriotas, explicou.
Ito, Tsukamoto e outros seis se reuniram no terreno do Fujimi Kannon no início de junho para discutir o futuro do ossuário e iniciar os preparativos para incorporá-lo como uma corporação religiosa, para que os restos mortais pudessem ser enterrados. Ito disse: “Quero rezar pelos sonhos daqueles que viveram em busca da liberdade do país e da pobreza, mas que morreram com seus sonhos destruídos”.
Meu pai finalmente pode descansar em paz

À esq. cerimônia e à dir. o homem de óculos é quem encontrou o local para os restos mortais de seu pai, para que descanse em paz (Asahi)
Em novembro de 2024, Hiroshi Yaegashi, 64, nikkei brasileiro, sepultou os restos mortais de seu pai, que chegou ao Japão na década de 1990 como dekassegui, marceneiro e trabalhava na indústria madeireira. Ele faleceu há dois anos, mas um túmulo japonês comum era “muito caro para mim”. Ao saber da existência do cemitério comunitário internacional, ele se sentiu aliviado e disse: “Meu pai finalmente pode descansar em paz.”
O vídeo que apresenta o cemitério internacional pergunta aos nikkeis: “Se vocês decidirem continuar morando no Japão, por que não pensar no que acontecerá com suas cinzas depois de morrerem?”.
É um questionamento não só para os que decidiram permanecer no Japão, mas também para o governo japonês que aceitou essa imigração, sobre o que fazer com os restos mortais.
Um columbário é uma estrutura que possui nichos individuais para a conservação de urnas cinerárias, que contêm as cinzas de pessoas cremadas.
FONTE: PORTAL MIE






















