“Não merecia ter vivido até agora”, diz réu do assassinato de Shinzo Abe durante julgamento
Tetsuya Yamagami falou sobre o envolvimento da mãe com a Igreja da Unificação e mostrou-se arrependido de seus atos
Falando pela primeira vez em tribunal na última quinta-feira (20), o homem julgado pelo assassinato do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, mostrou-se arrependido e pediu desculpas por seus atos.
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Segundo informações do jornal Kyodo News, Tetsuya Yamagami falou sobre o envolvimento de sua mãe com a Igreja da Unificação e o impacto disso em sua vida durante a décima audiência no Tribunal Distrital de Nara. O processo vai até o dia 18 de dezembro e a sentença está prevista para 21 de janeiro de 2026.
“Minha visão da vida e minha maneira de pensar mudaram radicalmente”, afirmou o réu, de 45 anos, quando questionado sobre como se sentiu quando sua mãe tornou-se seguidora do grupo religioso. “Ela não é uma pessoa má em essência. Havia apenas coisas sobre a Igreja da Unificação que eram difíceis para eu entender”.
De acordo com a defesa, a mãe de Yamagami doou cerca de 100 milhões de ienes à igreja. A quantia incluía o pagamento do seguro de vida do marido, após o suicídio dele, e ela posteriormente declarou falência.
“Acho que não teria sido um problema se ela não tivesse doado uma quantia tão grande”, disse Yamagami sobre a decisão da mãe de se juntar à igreja. A defesa ainda argumentou que o réu tornou-se cada vez mais “vingativo” em relação à igreja por conta da situação financeira da família, incluindo as ações da mãe e o suicídio do irmão em 2015. Yamagami também tentou suicídio quando tinha 24 anos, supostamente com a esperança de que deixaria o dinheiro do seguro de vida para os irmãos.
O acusado pediu desculpas por seus atos, dizendo estar “profundamente arrependido pelo transtorno causado” e que “não merecia ter vivido até a idade atual”.
De acordo com investigações do caso, Yamagami escolheu Abe como alvo porque o avô do ex-primeiro-ministro, Nobusuke Kishi, que também foi primeiro-ministro, ajudou a introduzir a Igreja da Unificação no Japão.
Julgamento e sentença
O julgamento contará com até 19 sessões, incluindo cinco audiências de interrogatório entre 20 de novembro e 4 de dezembro. O processo deve encerrar-se em 18 de dezembro, e a sentença está prevista para 21 de janeiro de 2026.
De acordo com a acusação, Yamagami recebeu cinco acusações: homicídio, violação da Lei de Armas e Espadas, fabricação ilegal de armas, posse de explosivos e destruição de propriedade.
Entenda o caso e suas consequências
- Em 8 de julho de 2022, o ex-primeiro-ministro Shinzo Abe foi baleado durante um discurso de campanha eleitoral em frente à estação Kintetsu Yamato-Saidaiji, na cidade de Nara;
- Equipes de emergência realizaram reanimação no local e o político foi levado de helicóptero médico a um hospital, mas morreu pouco depois;
- A polícia prendeu Tetsuya Yamagami no local do ataque, sob suspeita de assassinato;
- Ele usou uma arma caseira de dois canos, feita por ele mesmo;
- Durante o interrogatório, Yamagami declarou que sua mãe havia doado grandes quantias à antiga Igreja da Unificação, levando a família à falência, e que acreditava que Abe mantinha laços com o grupo religioso.
Avaliação psiquiátrica
- O réu foi submetido a uma avaliação psiquiátrica de seis meses para determinar sua capacidade de responder criminalmente;
- Em janeiro de 2023, a promotoria concluiu que ele tinha plena responsabilidade penal e o indiciou por assassinato e outros crimes;
- Uma audiência preparatória marcada para junho de 2023 precisou ser adiada depois que uma caixa metálica suspeita foi enviada ao tribunal;
- Ao investigar o conteúdo, a polícia descobriu que se tratava de um abaixo-assinado pedindo clemência ao réu;
- As audiências preparatórias foram retomadas em outubro de 2023. Ao longo de dois anos, ocorreram nove sessões, com a participação do próprio Yamagami em algumas delas.
Mudanças na sociedade e na política
- O atentado provocou profundas transformações na sociedade e na política japonesa;
- Diversos “filhos de fiéis” — conhecidos como “segunda geração religiosa” — começaram a denunciar abusos e pressões familiares, levando à criação de uma nova lei para amparar vítimas de grupos religiosos;
- O caso também expos conexões entre políticos e a antiga Igreja da Unificação, resultando em renúncias de ministros e queda de confiança no governo;
- Em paralelo, o Tribunal Regional de Tóquio atendeu ao pedido do governo e ordenou a dissolução da seita, acusada de explorar financeiramente seus seguidores com doações milionárias e práticas de “comércio espiritual”;
- A organização recorreu da decisão, e o processo segue em andamento na Corte de Apelações de Tóquio.
Falhas graves na segurança de figuras públicas
- O assassinato também revelou falhas graves na segurança de figuras públicas;
- Em resposta, a Agência Nacional de Polícia fez uma revisão completa dos protocolos de proteção de autoridades pela primeira vez em 30 anos;
- O novo manual reforça o papel de supervisão do governo central e aumenta o envolvimento direto da Agência na elaboração e execução de planos de segurança.
FONTE: ALTERNATIVA ON LINE






















