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Brigadas comunitárias no Pantanal: frente de adaptação climática e resistência contra o fogo

Em um dos cantos mais belos e de difícil acesso do Brasil, um batalhão comunitário se forma ano após ano para enfrentar o fogo no Pantanal. Entre os dias 22 e 25 de abril de 2025, a Serra do Amolar, localizada entre Corumbá (MS) e Cáceres (MT), na fronteira com a Bolívia, recebeu mais um treinamento de brigadas comunitárias. O objetivo: preparar pantaneiras e pantaneiros para defender a maior área úmida do mundo e a biodiversidade única do Pantanal. 

A região abriga um dos ecossistemas mais ricos do país e é reconhecida como Sítio Ramsar — uma designação internacional de áreas úmidas de importância ecológica. O Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense integra o sítio do Patrimônio Mundial da UNESCO, ao lado de três Reservas Privadas do Patrimônio Natural (RPPNs), além de ser reconhecida como Sítio Ramsar — título internacional para áreas úmidas de alta relevância ecológica. O envolvimento das comunidades locais nas iniciativas de proteção do Pantanal se tornou, nos últimos anos, um símbolo de solução sustentável entre homem e biosfera.   

Em 2024, o Pantanal enfrentou uma das piores temporadas de incêndios de sua história. Dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa) da UFRJ indicam que aproximadamente 2,6 milhões de hectares, ou 17% da área total do bioma, foram devastados pelo fogo. Esse número é quase três vezes maior que o registrado em 2023 e o segundo maior desde o início da série histórica em 2012, perdendo apenas para 2020, quando 3,6 milhões de hectares foram queimados.  

“No ano passado queimou um milhão de hectares a menos do que em 2020. Mas sabemos que o padrão da seca hoje é outro. Embora as mudanças climáticas estejam mais fortes, quem combate o fogo está mais organizado. Temos mais brigadistas, recursos, apoio da Força Nacional de Segurança, das forças armadas, estrutura de estado planejada”, conta Márcio Yule, coordenador do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (PrevFogo/Ibama) no Mato Grosso do Sul.  

O aumento significativo dos focos de incêndio foi impulsionado por uma seca extrema, associada ao fenômeno climático El Niño, que reduziu os níveis dos rios e aumentou a vulnerabilidade da vegetação. Além disso, o uso inadequado do fogo e as altas temperaturas contribuíram para a propagação descontrolada das chamas, afetando gravemente a biodiversidade e os modos de vida das comunidades locais. 

“Eu sou brigadista desde 2001, e o treinamento nos ajuda por muitas razões. O fato de estarmos com os equipamentos certos, e não com a mão limpa, faz toda a diferença. Nós, como povos tradicionais, temos um saber de manejo de fogo e conhecemos o território. Os bombeiros, quando vêm, precisam conversar com a comunidade, para saber o que tá acontecendo aqui. Essa junção do nosso saber, o treinamento e os equipamentos, abre espaço para a gente cuidar da terra, do Pantanal”, conta Eliane Aires de Souza, 58 anos, brigadista comunitária há 24 anos. Ela é quilombola e indígena do povo Guató, e vive na comunidade Barra de São Lourenço – à margem do rio Cuiabá próximo ao rio Paraguai, na divisa entre Mato Grosso do Sul e Mato Grosso e na fronteira com a Bolívia.

Inovação e saber tradicional 

O treinamento foi realizado no Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense, com articulação do WWF-Brasil, UNESCO, GEF Terrestre (Funbio) Ibama (PrevFogo), Ecoa (Ecologia e Ação) e Marinha do Brasil. 

Três brigadas, compostas por 30 pantaneiros (14 deles, mulheres), participaram da formação. Durante três dias intensivos — divididos entre teoria e prática — aprenderam técnicas de combate ao fogo com especialistas. 

Além dos métodos tradicionais de combate — como o uso de ferramentas específicas, controle da face do fogo, mapeamento de calor e vigilância — o treinamento incorporou novidades importantes. 

“Uma das inovações foi a introdução de práticas agroflorestais (SAFs) adaptadas ao contexto pantaneiro, como o manejo de roças de coivara e fundos de quintal. Essas áreas, além de serem importantes para a subsistência local, funcionam como corredores ecológicos que podem proteger a fauna em situações de fogo”, explica André Luiz Siqueira, diretor da Ecoa. 

Outra novidade foi a apresentação da ferramenta Sigma, um software desenvolvido pela SOS Pantanal que envia alertas de incêndios em tempo real por celular. A tecnologia é adaptada para usuários com baixa escolaridade e utiliza imagens de satélite para informar sobre ocorrências de fogo, direção do vento, temperatura e outros dados críticos.

Uma missão contínua 

Desde 2019, o WWF-Brasil tem liderado uma articulação com órgãos públicos e organizações locais para estruturar uma estratégia comunitária de combate ao fogo. Cerca de 100 brigadas foram formadas no Pantanal, Cerrado e Amazônia, totalizando 900 brigadistas voluntários (comunitários). Os grupos recebem treinamentos, apoio técnico, logísticos e a doação de equipamentos de proteção individual (EPIs), como bombas costais, sopradores, máscaras, coturnos e uniformes antichamas, e equipamentos de combate a incêndios — ao todo, mais de 12.000 itens já foram distribuídos. 

A atuação dessas brigadas tem sido determinante para conter focos de incêndio antes que se tornem incontroláveis. Em 2024, mesmo com uma das secas mais severas dos últimos anos, a área queimada no Pantanal brasileiro foi de 2,6 milhões de hectares — consideravelmente menor do que os mais de 10 milhões de hectares atingidos na porção boliviana do bioma.

O desafio da geografia e do tempo 

Corumbá, com seus mais de 64 mil km², é o 11º maior município do Brasil em extensão territorial. A Serra do Amolar, com sua geografia acidentada e acesso restrito por rios ou por via aérea, é um desafio logístico constante para o combate ao fogo. A alta concentração de turfa — matéria orgânica acumulada em áreas alagadas — gera biomassa que se torna combustível natural durante a seca, fazendo com que o fogo volte todos os anos com força renovada. 

Este treinamento faz parte de um projeto liderado pela UNESCO, com apoio do Fundo de Emergência do Patrimônio da UNESCO (HEF). A iniciativa busca proteger áreas de alto valor ecológico e cultural que integram sítios do Patrimônio Mundial: os Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense (MT), a Chapada dos Veadeiros (GO) e o Parque Nacional das Emas (GO). Um plano de ação está sendo desenvolvido para guiar brigadistas voluntários, com base no Manejo Integrado do Fogo (MIF) e no Guia de Gestão de Risco de Incêndio da UNESCO. 

Ao todo, neste projeto, foram treinadas 60 pessoas: 30 no Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense (MT), 15 no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO), e 15 no Parque Nacional das Emas (GO). Cerca de 800 equipamentos entregues, entre instrumentos de combate ao fogo e equipamentos de proteção individual (EPIs). 

O apoio da Marinha do Brasil possibilitou a logística de todas as pessoas que passaram pelo treinamento, funcionários do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) que cederam acomodações aos participantes, dos especialistas que ministraram as aulas e que se deslocaram na ida e volta em pequenas embarcações nos três dias de curso. Ao todo foram 950 litros de gasolina e 870 quilos de alimentos. 

O plano será implementado em até dois meses e tem como meta fortalecer a resposta comunitária e a preparação para o período crítico de queimadas, que se aproxima. 

“O projeto financiado pelo Fundo de Emergência do Patrimônio traz uma grande contribuição para as comunidades locais ao reconhecer e fortalecer o seu papel fundamental na prevenção e combate ao fogo”, afirma Marlova Jovchelovitch Noleto, Diretora e Representante da UNESCO no Brasil. 

Embora o cenário climático seja cada vez mais desafiador, a mobilização comunitária e a combinação de saberes locais com tecnologia têm se mostrado eficazes na contenção dos danos. “A formação de brigadas civis é, mais do que um planejamento de combate aos incêndios no contexto da emergência climática, é uma estratégia de adaptação a partir do território, que apoia a autonomia e resiliência no Pantanal”, explica Osvaldo Barassi Gajardo, especialista de Conservação no WWF-Brasil. 

A cada novo treinamento, mais do que capacitação, se constrói uma rede de proteção viva — onde a natureza, a ciência e a comunidade caminham juntas. 

Nuno Rodrigues da Silva, chefe do Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense explica que o pantanal concentra uma grande biodiversidade, sendo muito importante para a reprodução de peixes (ictiofauna). “Os peixes aqui se reproduzem e migram a partir dessa região, que tem uma importância para os povos tradicionais, turismo sustentável e conservação de espécies, como a onça-pintada, ariranha, tamanduá-bandeira. Essa importância não se limita somente ao Brasil, mas para o mundo.” 

A brigadista Eliane tem um sonho para a maior área úmida do mundo: “a gente cuida da natureza e a natureza cuida de nós. Meu sonho é um pantanal verde e cheio de bichos”. 

Sobre o Fundo de Emergência do Patrimônio 

Essa atividade foi apoiada pelo Fundo de Emergência do Patrimônio da UNESCO (HEF). Expressamos nossa gratidão aos seus doadores: o Principado de Andorra, o Fundo do Catar para o Desenvolvimento, Canadá, a República Eslovaca, a República da Estônia, a República Francesa, a República da Lituânia, o Grão-Ducado de Luxemburgo, o Principado de Mônaco, o Reino da Noruega, o Reino dos Países Baixos, a República da Polônia, o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, a República da Sérvia, e a ANA Holdings INC.

FONTE: WWF BRASIL

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