Leitura de jornais cai e cresce o consumo de notícias pela internet
Uso da internet ultrapassa o da TV em todas as faixas etárias; especialistas alertam para desafios à democracia e à credibilidade da informação
O tempo que os japoneses passam na internet durante a semana superou, pela primeira vez, o tempo dedicado à televisão em todas as faixas etárias. E a diferença continua aumentando, segundo dados do Ministério de Assuntos Internos e Comunicações.
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Os jovens estão cada vez mais distantes da mídia tradicional, como TV e jornais. Mesmo o Yomiuri Shimbun, ainda o jornal de maior circulação do mundo, viu sua tiragem matinal cair de mais de 10 milhões de exemplares em 2010 para 6,2 milhões em 2023.
Enquanto isso, o YouTube alcança mais de 80% de usuários em todas as idades, e criadores independentes os chamados “explicadores”, que frequentemente atraem mais público que os veículos tradicionais. Já no X (antigo Twitter), mais de 40% dos usuários compartilham opiniões que muitas vezes ultrapassam a checagem de fatos.
Especialistas alertam que o novo cenário midiático afeta não só o jornalismo, mas também a própria democracia japonesa.
A artista de mangá Mayumi Kurata chamou atenção para o tema em julho, ao criticar no X a linguagem discriminatória dirigida a uma atriz de filmes adultos. A postagem viralizou e reacendeu o debate sobre a confiança entre a velocidade da internet e a credibilidade da mídia tradicional.
Kurata aponta que jovens e idosos, embora vivam no mesmo país, assimilam informações de formas tão diferentes que parecem viver em nações distintas. Segundo ela, as redes sociais criam “câmaras de eco”, em que os usuários são expostos apenas a ideias que reforçam suas próprias crenças.
“Se for o partido Sanseito, por exemplo, os usuários acabam pensando apenas nisso, e isso se torna algo muito importante para eles”, explica Kurata, 54 anos, referindo-se ao partido populista emergente que conquistou cadeiras nas últimas eleições com o slogan “Japonês Primeiro”.
E a falta de transparência da imprensa tradicional, que muitas vezes não corrige erros ou evita temas sensíveis devido à dependência de anunciantes e restrições da lei de radiodifusão.
Uma análise da Kyodo News sobre os vídeos mais vistos no YouTube durante a eleição para a Câmara dos Vereadores mostrou que 80% dos conteúdos eram clipes curtos de terceiros, com linguagem provocativa e sem relação direta com partidos ou políticos. Vídeos de veículos de comunicação tiveram pouca audiência.
Kurata alerta para a preferência crescente por conteúdos rápidos e superficiais:
“As pessoas querem entender só o essencial. Vídeos curtos bastam, e para os criadores, eles são mais fáceis de produzir. É vantajoso para todos.”
No YouTube, mais visualizações significam mais receita e o uso de linguagem provocativa aumenta o engajamento. “As organizações jornalísticas são cautelosas, mas não conseguem competir com o volume e a intensidade dos clipes das redes sociais”, afirma Kurata.
Mesmo reconhecendo os excessos e ataques nas redes, ela defende a liberdade de expressão, desde que difamações graves sejam tratadas judicialmente. “Sou contra que o governo ou partidos decidam o que deve ser removido.”
Apesar da fragmentação da informação, Kurata vê um ponto positivo: influenciadores e celebridades podem despertar o interesse político dos jovens.
“Há potencial para que a participação eleitoral aumente no futuro”, diz.
Para ela, o melhor caminho é combinar mídias sociais e meios tradicionais, aproveitando os pontos fortes de cada um. “O YouTube já incorpora técnicas que rivalizam com a TV. Seria um desperdício se a mídia tradicional simplesmente desaparecesse. É hora de aprender com as redes e evoluir.”
FONTE: ALTERNATIVA ON LINE






















