Redes sociais ajudam a expor casos de “ijime” no Japão diante da indiferença de escolas e autoridades
Apesar do apoio de muitos, a prática de espalhar vídeos de violência sofre forte resistência de quem já esteve no lugar da vítima
O compartilhamento de vídeos que registram cenas de bullying (ijime) e agressões físicas entre estudantes tornou-se um fenômeno recorrente e polêmico no Japão. Casos recentes em províncias como Tochigi e Oita reacenderam um debate ético e jurídico: expor agressores na internet é uma forma legítima de proteção ou apenas um “linchamento virtual” que gera novos traumas?
Uma consulta realizada pelo portal Bengoshi.com News com vítimas, pais e educadores revelou que o recurso ao “tribunal da internet” nasce, quase sempre, de um profundo sentimento de abandono pelas instituições oficiais.
Muitos pais relatam que só conseguiram proteção para seus filhos após levarem as provas para o ambiente digital. Um pai da província de Okayama descreveu como sua filha, estudante do ensino fundamental, passou a sofrer isolamento e faltar às aulas. Ele coletou áudios das agressões e publicou nas redes sociais que estava consultando advogados e a polícia.
“A escola, que até então não fazia nada, agiu imediatamente. Entraram em contato com os pais dos agressores e recebemos um pedido de desculpas”, afirmou. Para ele, a postura firme dos adultos é a única saída: “A sociedade subestima o bullying. Sem pressão, as escolas não resolvem o problema”.
Relatos semelhantes vêm de gerações anteriores. Uma mulher de 50 anos, de Aichi, que foi agredida fisicamente na escola quando jovem, lamenta: “Na minha época não existia rede social. Hoje, acho compreensível que exponham, porque as instituições educacionais continuam falhando”.
A “lei do menos pior”
A crítica central recai sobre o “comodismo” das escolas e conselhos de educação. Há relatos de que incidentes graves são frequentemente suavizados, substituindo termos agressivos por palavras mais leves ou evitando classificar as ações como “bullying em grupo” para não manchar o histórico escolar dos agressores.
“Parece que as autoridades só se movem quando a vítima morre”, desabafou uma mãe de Hokkaido, cujo filho também sofreu abusos.
Apesar do apoio de muitos, a prática de espalhar vídeos de violência sofre forte resistência de quem já esteve no lugar da vítima. Para essas ex-vítimas, as imagens não são ferramentas de justiça, mas sim “sal na ferida”.
Uma vítima de bullying afirmou ser “terminantemente contra” a difusão dos vídeos. “Para quem passou por isso, ver essas imagens causa flashbacks dolorosos. Ver jovens sofrendo pode, inclusive, levar ao suicídio de quem já está fragilizado.”
Um homem de Osaka alertou para a questão da dignidade. “Ser exposto para o mundo inteiro no momento em que se é humilhado e agredido é uma violação profunda da honra da vítima, que ficará marcada para sempre na internet (o chamado digital tattoo).”
A visão dos professores
Professores também apontam para a complexidade do problema. Uma educadora de Quioto mencionou que muitos alunos postam fotos e vídeos apenas para “viralizar”, sem medir as consequências.
Segundo ela, o cenário atual é fruto de uma combinação explosiva: pais sobrecarregados que não conseguem dar suporte emocional aos filhos e uma estrutura escolar com mentalidade de ocultação de problemas.
Embora o compartilhamento de vídeos possa, em curto prazo, forçar escolas e polícias a agirem, ele carrega riscos jurídicos de difamação e danos psicológicos irreversíveis à própria vítima.
O debate sugere que, enquanto os canais oficiais de denúncia forem vistos como ineficazes e “omissos”, a sociedade continuará buscando na internet uma justiça que o sistema não entrega.
FONTE: ALTERNATIVA ON LINE






















