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Navegando pelo rio que secou

A tarefa era desafiadora: levar 854 cestas básicas de Manaus a Tefé, onde a seca histórica do rio Solimões vitima milhares de pessoas e famílias. Com tanta coisa em mãos – eram pacotes com leite em pó, arroz, óleo, feijão, farinha, entre outros mantimentos – embarcamos as 15 toneladas em um barco a jato, que em tese faria a viagem de maneira mais rápida e levaria os alimentos às mãos de quem precisava de maneira mais prática e eficiente.  

A previsão de viagem era de 24 horas, com possibilidades de extensão desse prazo. Não se sabia das condições de navegação do rio Solimões e o Expresso Hannah, a embarcação destacada para a tarefa, costuma fazer apenas o trajeto Manaus- Janauacá, uma região turística muito conhecida perto da capital do Amazonas, cuja rota é feita em pouco mais de duas horas. É como se subitamente colocássemos alguém que faz uma caminhada diária de dez minutos para correr uma prova de uma hora. “Confia no processo”, dizem.  

A saída do rio Negro foi relativamente tranquila, e a passagem pela orla da capital revelou uma Manaus que nem todo mundo conhece ou se dá conta no dia a dia: cheia de portos particulares, com enormes embarcações e estruturas, navios industriais e grandes balsas.

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Para fazer as 15 toneladas de mantimentos chegarem a Tefé, foram necessários dois dias de viagem

Quando se trata de Manaus, lembra-se muito das florestas e dos povos indígenas, mas geralmente esquece-se da importância econômica que os grandes rios amazônicos têm para o Brasil. Nem todo mundo lembra ou sabe, por exemplo, que o Porto de Manaus é o maior porto flutuante do mundo e que praticamente toda a produção nacional de micro-ondas, lavadoras de louça, televisores e aparelhos de ar condicionado sai do Pólo Industrial de Manaus. Para ficar em outro exemplo, o rio Madeira é uma importante hidrovia para o escoamento de soja, um dos principais produtos de exportação do Brasil.  

Nossa saída, no início da manhã de um sábado, foi tranquila: éramos um grupo pequeno, num barco cheio de caixas e cestas básicas, e pudemos fazer um início de trajeto com calma e em paz.

O Encontro das Águas, que em alguns trechos costuma ter bem marcadas as águas pretas do rio Negro e as águas marrons do rio Solimões, hoje possui aspecto enlameado, provavelmente por conta da seca histórica que mudou os principais rios da Bacia Amazônica. Um retrato triste e sem graça de um bioma que tem sofrido bastante nos últimos anos, e uma descaracterização que reflete bem a angústia amazônica, vítima de diversas crises seguidas, como a pandemia de Covid-19 e os eventos climáticos extremos. Foi de Manaus, ressalte-se, que saíram as imagens das valas coletivas que chocaram o mundo durante o suplício provocado pelo coronavírus.

Com a seca histórica, bancos de areia ficaram comuns na paisagem amazônica

Já nas águas barrentas do Solimões, a quantidade de desbarrancamentos, galhos e árvores nas águas chamou a atenção. “Quando tem muito pau assim na água, isso significa que o rio já tá subindo”, disse Francinete – a maquinista do Expresso Hannah que, em nossa viagem, acumulou seu trabalho costumeiro com a função de cozinheira. 

Francinete é uma personagem curiosa. Era nossa cozinheira e maquinista, ou seja, estava a postos para fazer reparos no motor do barco quando necessário. “As pessoas sempre se espantam, não é comum ver uma mulher nessa função. No curso que eu fiz nós éramos trinta mulheres, mas nem todas tão trabalhando na área. Eu fiquei, e as pessoas sempre se surpreendem quando eu falo”, disse a nossa maquinista-cozinheira. Felizmente, nosso motor não deu problema e Francinete pôde concentrar seus esforços na cozinha.

Às margens dos rio Solimões, é possível ter uma ideia do quanto a água baixou

Tínhamos Internet no barco – uma conexão da Starlink, do infame Elon Musk, fez com que nosso isolamento não fosse permanente ou duradouro. Embora com algumas quedas eventuais, nosso link de Internet era bom, permitindo que ouvíssemos música no Spotify, assistíssemos vídeos curtos no Instagram e mantivéssemos contato com nossas famílias por meio do whatsapp. Optei por pegar no celular o mínimo possível, mas ainda assim sucumbi ao tédio de uma viagem amazônica de barco  e me peguei de vez em quando respondendo memes dos amigos ou mandando mensagens carinhosas para minha esposa.

Ao final da primeira noite, encostamos em Codajás, cidade conhecida como a Terra do Açaí. A seca fez com que o rio e a cidade ficassem a uma distância enorme.  O cansaço também era grande, de modo que ninguém tomou coragem para dar uma volta por lá. Com exceção do Baixinho, um dos tripulantes que desceu do teto do barco de sapato fechado, calça comprida e banho tomado, dizendo “É doidice chegar na cidade e não ir lá conhecer, né”. Ele estava tão empolgado que armou sua rede num barco ao lado, para não atrapalhar ninguém quando voltasse da balada interiorana tarde da noite.  

Antes de dormir, fomos à popa do barco curtir brevemente a noite amazônica. De frente pra cidade, a única coisa que conseguíamos ver e ouvir era uma enorme festa na orla da cidade. Um cantor pouco talentoso cantava hits sertanejos; de longe a gente só via as luzes dançando pra lá e pra cá. Nada de gritos de plateia, roncos de motocicletas nem muitos agradecimentos aos donos de mercadinhos e vereadores. “Essa festa deve tá ruim”, alguém falou, para a risada geral de todos. 

No café da manhã do dia seguinte, Baixinho disse que voltou às 3h, dormiu com muito frio – como estava sozinho no outro barco, passou a noite levando fortes jatos de vento em sua rede.

A noite amazônica é repleta de cores e mistérios; um dos pernoites ocorreu na cidade de Codajás, a “Terra do Açaí”

Paramos no porto de Coari por volta das 11h do domingo, para entregar uma encomenda a uma pesquisadora do Instituto Mamirauá. Notamos que, na orla da cidade, os botos estavam muito à vontade, pulando o tempo inteiro pra lá e pra cá. Era muito fácil ver os bichos, e a presença ostensiva deles na frente da cidade chamou atenção.

A pesquisadora demorou a vir e, quando chegou, estava esbaforida, por conta do sol amazônico e da grande distância percorrida entre o porto e o barco em que estávamos. Descobrimos depois que havia um terceiro motivo: nos últimos dias, foram descobertas nos arredores de Coari 17 carcaças de botos mortos.

Eram carcaças mesmo, em alguns casos apenas os crânios, já em avançado estado de decomposição, que mostravam que a tragédia ambiental ocorrida em Tefé dias antes provavelmente tinha uma área de abrangência muito maior do que o verificado até então. Uma reunião de emergência entre os cientistas do Mamirauá ocorreria naquela noite, para definir providências a respeito dessa nova descoberta.  

A pesquisadora disse que os cientistas do Instituto estavam preocupadíssimos, pois na orla de Coari os botos estavam pulando muito, e isso não era um comportamento normal da espécie. Algo diferente estava acontecendo, e ninguém sabia o que era.

Em Coari, passamos por instalações da Petrobrás que trabalham com gás natural. Nos despedimos da cidade vendo uma praia repleta de urubus no chão – eram dezenas deles rodeando algo que não estava claro para nós àquela distância. “Tanto urubu assim, com certeza é carcaça de boto ali também”, disse Nete, a nossa maquinista-cozinheira. 

O projeto Asas da Emergência já entregou, em duas viagens, 18 toneladas de mantimentos para as famílias de Tefé

Outra coisa curiosa aconteceu em Coari. Acabamos dando carona a três policiais que precisavam chegar até a base Arpão. A base Arpão é um complexo de segurança interinstitucional do Governo do Amazonas, que reúne diversas forças de segurança para vigiar e proteger as águas do rio Solimões.

Não por acaso, é por ali que acontece a maior parte das ocorrências de pirataria do Estado. Os piratas dos quais falo são grupos criminosos, que atacam geralmente à noite, roubam celulares, joias, relógios e combustível; e eventualmente praticam atos de violência e tortura contra as pessoas que encontram nos barcos que atacam. São bandos liderados geralmente por homens jovens, cujas famílias, situadas nas cidades da região, ajudam na lavagem dos produtos roubados e acobertam os crimes praticados. 

O trecho compreendido entre as cidades de Fonte Boa e Jutaí, e nos pequenos canais e igarapés que formam a bacia do rio Juruá, é a região onde este tipo de crime mais acontece. A região em que navegamos é, de fato, muito famosa por ser um importante corredor internacional de tráfico de drogas e armas, disputada por algumas das facções criminosas mais perigosas do Brasil.  

“Acabamos de neutralizar o Pincha”, disse orgulhoso um dos policiais a quem demos carona. Ele disse que, quatro dias antes, uma grande operação policial havia ocorrido por ali. Eles estavam de folga em Coari e iam à base Arpão para começar o serviço no dia seguinte. Ficariam um mês lá embarcados. Eram jovens e fortes, todos de Manaus. 

De alguma maneira, fomos desenrolando assunto e chegamos a Havana, a cadela da base Arpão que ajuda os policiais a encontrar drogas nos barcos regionais. “Havana tem o faro treinado para narcóticos”, disseram eles, que explicaram ainda que ela costuma sentar nas malas, bolsas e caixas onde detecta drogas e que ela pula incessantemente quando acha substâncias ilícitas no teto dos barcos. Nos despedimos deles uns quarenta minutos depois, assim que chegamos à base Arpão, pegando o contato dos policiais para o caso de alguma ocorrência (“É só ligar que a gente acompanha vocês”, disse um deles). 

A segunda noite no Solimões teve os únicos momentos de perigo de encalhe. O capitão Daniel chegou a deslizar num banco de areia, mas foi sagaz o suficiente para desviar a tempo. Nem todo mundo percebeu o risco – era tarde da noite e boa parte do nosso grupo já estava acomodada para dormir nas redes montadas no meio do barco. Foi uma noite longa: paramos para dormir por volta das 23h30, pois o capitão Daniel queria parar a navegação o mais próximo possível de Tefé. Atamos nossas redes e fomos dormir ouvindo um ou outro zumbido dos mosquitos amazônicos, chamados de carapanãs. Eram tão poucos, porém, que não chegaram a incomodar. Foi quase um presente, considerando o quão infernais e insuportáveis esses bichos conseguem ser em outras regiões da Amazônia. 

As 854 cestas foram entregues em uma manhã de trabalho no porto de Tefé

Depois de dois dias inteiros de viagem, chegamos ao Lago Tefé, que fica em frente à cidade de mesmo nome, por volta das 7h20 da segunda-feira. Uma força-tarefa foi montada por diversas pessoas para fazer o descarrego do material. Eram analistas ambientais do ICMBio, lideranças indígenas, representantes de organizações extrativistas e estudantes do Instituto Federal do Amazonas (Ifam) que vieram ajudar a carregar as cestas.  Alguns representantes já vieram de barco, de modo que o transporte foi feito do nosso barco para a voadeira deles. Eram barcos pequenos, simples, feitos de madeira desgastada, com quatro ou cinco homens e algumas toneladas de mantimentos. Esses barcos iam baixo nas águas do Lago Tefé. Outras cestas foram levadas de caminhonete para um depósito, de onde sairiam posteriormente rumo às comunidades. 

Foi uma manhã inteira de trabalho, que só não foi mais sofrida porque o sol não estava a pino. Ele estava, na realidade, escondido por entre as nuvens. Sua luz estava difusa no porto de Tefé e o clima estava com ar parado e abafado, o típico mormaço amazônico. Nos momentos mais agitados, cerca de cinquenta pessoas andavam pra lá e pra cá com as cestas, tirando os itens do Expresso Hannah, que veio com a gente de Manaus, e colocando em pequenos barcos, carros cedidos por parceiros ou no chão do porto mesmo. Aproveitei a presença de alguns líderes comunitários e fui puxando alguns deles para gravar entrevistas.

“Não tenho como não ficar grato e feliz”, disse Emídio Marinho Nogueira, o Kokama. Cacique da Aldeia Nova Jerusalém, que fica no Lago Tefé e abriga 66 famílias de diversas etnias,como Tikuna, Kambeba e Kanamari, ele contou que, embora a seca tenha feito as distâncias aumentarem enormemente nas suas redondezas de setembro pra cá, a chegada das cestas não deixa de ser um alívio e uma esperança. “A gente não consegue pescar e a nossa roça fica longe, longe demais. Acaba que os mais prejudicados com essa estiagem são os mais velhos, que também não conseguem vir pra cidade vender sua produção nem pegar dinheiro no banco”. Ele disse que saiu da aldeia por volta das 6h e chegou a Tefé por volta das 10h, andando com uma mochila nas costas junto a um acompanhante. Apesar do cansaço, parecia feliz. Falamos um pouco no vídeo, gravamos umas falas dele. A maior parte da conversa foi sobre problemas e dificuldades. Kokama encerrou a entrevista, porém, com um largo sorriso dizendo Supipari Iranã. Perguntei a ele o que significava e ele contou, satisfeito: “Obrigado, tá tudo bem”.

FONTE: GREENPEACE BRASIL

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