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Sem provas, candidatos culpam estrangeiros pela criminalidade no Japão

Com a aproximação do dia da votação das eleições para a Câmara Alta no Japão, no próximo domingo, tem crescido o número de postagens nas redes sociais mencionando os estrangeiros. Ao mesmo tempo, os discursos dos partidos políticos vêm se tornando mais intensos.

No entanto, entre as falas de candidatos e conteúdos compartilhados nas redes sociais, há muitas informações equivocadas ou baseadas em interpretações distorcidas.

O líder do Sanseito, Sohei Kamiya, e diversos candidatos do partido têm divulgado, em discursos e nas redes, que “estrangeiros trazem crime ao Japão”, utilizando alegações alarmistas sem dados embasados.

Naoki Hyakuta, líder do Partido Conservador, declarou em comício que “trabalhadores estrangeiros desrespeitam regras, agridem japoneses, violam costumes e até praticam furtos”. No entanto, ele não apresentou dados concretos.

Especialistas alertam que essa onda de desinformação pode alimentar o sentimento xenófobo. A emissora NHK analisou algumas das alegações mais compartilhadas relacionadas à segurança pública.

Aumento de estrangeiros e criminalidade
Uma das afirmações mais populares nas redes, com mais de 500 mil visualizações, é a de que o aumento da população estrangeira estaria relacionado à piora na segurança pública. Mas o que dizem os dados?

Segundo levantamento de Yu Korekawa, diretor do Departamento de Relações Internacionais do Instituto Nacional de Pesquisa em População e Seguridade Social, o número de estrangeiros residentes no Japão quase triplicou nos últimos 30 anos, passando de cerca de 1,3 milhão para 3,7 milhões.

No entanto, o número de estrangeiros detidos por crimes caiu no mesmo período: de 14.786 em 2005 para 9.726 em 2023.

“Mesmo com o aumento do número de estrangeiros, os crimes cometidos por eles vêm diminuindo. Não é possível afirmar que a taxa de criminalidade entre estrangeiros seja maior do que entre japoneses”, disse.

Comparações distorcidas
O diretor destaca que, ao calcular a taxa de criminalidade por número de habitantes, os estrangeiros podem parecer ter uma taxa levemente maior, mas essa comparação é enganosa.

“A população estrangeira no Japão é, em sua maioria, jovem. Já entre os japoneses, a base populacional inclui desde recém-nascidos até idosos. Comparar essas populações de forma direta, sem ajustar a composição etária, não faz sentido estatístico”, explicou

Ele acrescenta que, ajustando os dados por idade, a taxa de criminalidade entre estrangeiros ainda é menor do que a de japoneses em regiões com índices mais altos.

Estrangeiros em situação ilegal
Outro boato recorrente é de que “os estrangeiros ilegais estão aumentando”. Porém, segundo dados do Ministério da Justiça, o número de estrangeiros em situação de permanência irregular caiu para um quarto do registrado há 20 anos. Nos últimos anos, esse número se mantém estável.

Baixo índice de indiciamento
Afirmações de que estrangeiros têm mais chances de não serem indiciados (ou seja, de não serem processados após a prisão) não se sustentam.

O Relatório Criminal de 2024 mostra que a taxa de indiciamento entre estrangeiros foi 4,2 pontos percentuais maior do que a média geral da população (incluindo japoneses) no caso de crimes regidos pelo Código Penal.

Ao analisar os dados dos últimos 15 anos, não há nenhuma evidência de que estrangeiros sejam menos processados que japoneses.

Para crimes regidos por leis especiais (excluindo a violação da Lei de Imigração), a taxa de indiciamento entre estrangeiros foi apenas 0,1 ponto percentual inferior, ou seja, praticamente igual à dos japoneses.

Crimes violentos
Alguns afirmam que estrangeiros são mais propensos a crimes graves, mas os dados não apontam diferenças significativas nos tipos de crimes cometidos por estrangeiros e japoneses.

“Nos últimos dois ou três anos, o número total de crimes penais aumentou no Japão — tanto entre japoneses quanto entre estrangeiros. Em muitos casos, isso está ligado ao aumento da fiscalização policial, o que leva à detecção de mais casos. Isso não significa necessariamente que a segurança da região tenha piorado — na verdade, pode até indicar uma melhora. É importante observar esses dados com cautela”, disse Korekawa.

FONTE: ALTERNATIVA ON LINE

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