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Restauração florestal no Brasil precisa de governança — e o estado do Espírito Santo dá um passo decisivo

O Plano Estadual de Recuperação da Vegetação Nativa do Espírito Santo, lançado em março deste ano, é um passo importante para intensificar as estratégias de conservação da Mata Atlântica

A restauração da vegetação nativa vem ganhando espaço no debate público brasileiro — impulsionada por compromissos climáticos, metas de biodiversidade e pela crescente pressão sobre os recursos naturais. Mas transformar ambição em resultado ainda é um dos maiores desafios do país. 

É nesse ponto que o Espírito Santo oferece uma contribuição relevante. 

Com o lançamento do Plano Estadual de Recuperação da Vegetação Nativa (PERVN), em março deste ano, o estado consolida uma abordagem que vai além da soma de iniciativas isoladas: visa organizar, integrar e criar uma visão estratégica comum para a recuperação em escala no Espírito Santo. 

Ainda que não seja um instrumento inédito — outros estados brasileiros já possuem planos de restauração — o diferencial está no alinhamento à arquitetura do novo Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), conectando a agenda estadual às diretrizes nacionais. 

Seguindo essa arquitetura, o plano capixaba se estrutura a partir de quatro estratégias transversais e três arranjos de implementação trabalhados de forma complementar, ampliando a capilaridade das ações e potencializando o alcance da meta. 

De um lado, as estratégias (inteligência espacial e monitoramento; cadeia produtiva da recuperação; pesquisa, desenvolvimento e inovação; financiamento) criam as condições para viabilizar a escala, qualidade e sustentabilidade da restauração. De outro, os arranjos de implementação organizam a ação no território considerando as particularidades de cada um, contemplando a recuperação em áreas privadas, a recuperação de áreas públicas e a restauração de áreas degradadas a partir de sistemas produtivos sustentáveis como os sistemas agroflorestais e a silvicultura de nativas 

Faz parte desse sistema o estabelecimento de uma governança que promova articulação entre os diversos setores envolvidos na recuperação da vegetação nativa no território, que são o poder público, setor privado, academia, organizações da sociedade civil, representações de comunidades rurais e tradicionais. Trata-se de um elemento central para evitar que o plano se torne apenas um instrumento formal e garantir sua implementação efetiva. 

Essa combinação não é trivial. Ela traduz um aprendizado importante: restaurar não é apenas plantar árvores, mas estruturar uma agenda que conecta dados, financiamento, ciência e conhecimentos tradicionais, produção e políticas públicas. Mais do que uma agenda ambiental, a restauração é tratada como uma solução transversal com impactos diretos sobre segurança hídrica, mitigação e adaptação climática, produção de alimentos e conservação da biodiversidade. Nesse sentido, a estratégia também dialoga com outras políticas públicas já existentes no estado, ampliando sinergias e evitando sobreposições. 

A própria construção dessa estratégia reflete essa lógica. Conduzido de forma interinstitucional, o processo capixaba reuniu governo, setor produtivo, comunidades, instituições de pesquisa e sociedade civil, incluindo o WWF-Brasil que integrou o grupo de trabalho responsável por apoiar sua elaboração. 

O diagnóstico é claro: um dos principais entraves, não só para o Espírito Santo, para avançar na restauração em escala é a fragmentação das iniciativas e a baixa coordenação e articulação entre atores. No estado capixaba, a solução se consolida com a instituição, por decreto estadual, do Programa de Recuperação da Vegetação Nativa, que confere força normativa ao plano e à governança multissetorial dedicada a orientar e acompanhar a implementação, promovendo a integração entre atores, políticas, programas e outros instrumentos. 

A meta de recuperação foi construída a partir de um diagnóstico da vegetação nativa no estado, que identificou os principais passivos ambientais e mapeou iniciativas já existentes com compromissos de restauração. Com base nesse levantamento, chegou-se à meta de, ao menos, 30 mil hectares em restauração dentro do período de 2026 a 2030. 

Embora esse número possa parecer modesto diante da meta nacional de 12 milhões de hectares, a estratégia capixaba foi concebida de forma estrutural. Mais do que ampliar rapidamente a área restaurada, o plano estabelece um modelo robusto de governança, alinhamento multinível e articulação entre políticas públicas e instrumentos financeiros — criando as condições para acelerar a restauração no médio e longo prazo. Em território estratégico da Mata Atlântica (Corredor Central), amplia também o impacto qualitativo das ações e se posiciona como referência para a implementação do Planaveg. 

Alcançar a meta nacional dependerá, cada vez mais, da capacidade dos estados de assumirem protagonismo — não como executores isolados, mas como articuladores de políticas, investimentos e atores no território. 

Em ano eleitoral, cabe a pergunta: quantos candidatos estão preparados para tratar a restauração como política pública — e não apenas como discurso? O caminho está posto. O desafio agora é ganhar escala.

Ainda que não seja um instrumento inédito, o diferencial do PERVN Capixaba está no alinhamento à arquitetura do novo Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa

© Adriano Gambarini / WWF-Brasil

FONTE: WWF BRASIL

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