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Sem salário e sob violência: por que estrangeiros acabam no trabalho ilegal

Casos de trabalho ilegal entre estrangeiros no Japão revelam uma realidade marcada por dívidas, exploração e medo. Segundo a imigração japonesa, mais de 38 mil estagiários técnicos desapareceram de seus locais de trabalho nos cinco anos até 2024, muitos por más condições laborais.

Enquanto o Japão amplia a aceitação de trabalhadores estrangeiros, os casos de trabalho ilegal continuam sendo um problema persistente.

Por trás das estatísticas, há histórias de pessoas que chegaram ao país com dívidas, enfrentaram abusos e acabaram fugindo do local de trabalho, passando a viver em situação irregular.

Um desses casos é o de Zun, nome fictício de um vietnamita de 45 anos. Ele veio ao Japão em 2019 como estagiário técnico, após pagar cerca de ¥800 mil a uma agência no Vietnã.

Segundo ele, a promessa era de que haveria muitas horas extras e possibilidade de juntar dinheiro rapidamente para ajudar os pais idosos e pagar os estudos dos dois filhos.

O trabalho, porém, era em uma construtora em Yokohama, com atividades perigosas em locais altos. O salário líquido era de cerca de ¥120 mil por mês, e quase não havia horas extras ou trabalho em feriados.

Quando não entendia as instruções, Zun relatou que era agredido por colegas japoneses, com tapas na cabeça e nas pernas, além de ferramentas arremessadas. Ao pedir ajuda ao presidente da empresa, a violência teria piorado.

Fuga e busca por trabalho nas redes sociais

Sem suportar a situação, Zun fugiu do local de trabalho cerca de seis meses após chegar ao Japão. Com a ajuda de outro vietnamita, passou a procurar empregos por páginas no Facebook voltadas a “bodoi”, termo usado em vietnamita para se referir a trabalhadores que desaparecem dos locais de estágio.

Nessas páginas, anúncios de trabalho ilegal indicavam emprego e moradia mediante pagamento de taxa a intermediários.

Ele passou por vários locais, trabalhando na agricultura e na limpeza de hotéis, até chegar a uma fábrica de peças automotivas. A taxa de apresentação foi de ¥40 mil. Segundo o relato, o presidente da empresa não verificou o cartão de residência e decidiu contratá-lo.

O trabalho era de inspeção e embalagem de peças plásticas, em turnos diurnos e noturnos, com jornadas de até 12 horas em pé, incluindo horas extras.

O pagamento era de ¥900 por hora, em dinheiro vivo. Como não havia inscrição no seguro social, o valor líquido chegava a cerca de ¥250 mil por mês.

Zun morava no segundo andar do escritório da fábrica e saía apenas uma vez a cada duas semanas, levado pelo presidente da empresa para fazer compras no supermercado. Apesar da situação irregular, ele disse que sentia estabilidade e que, pela primeira vez, era necessário para alguém.

Trabalhadores ficam vulneráveis a abusos

A condição de trabalho ilegal, no entanto, deixa os estrangeiros em uma posição extremamente frágil. Uma vietnamita de 39 anos, que havia fugido do estágio técnico e passou a trabalhar em uma fábrica de máquinas de pachinko, relatou que não recebeu salário.

Após procurar um sindicato de apoio a estrangeiros, ela fez um acordo para receber ¥70 mil, mas disse ter sentido que foi tratada com desprezo.

Zun também afirmou que já perdeu emprego e moradia ao mesmo tempo depois de ser demitido repentinamente de um trabalho de limpeza em hotel indicado por uma dessas páginas. Quando ficou doente, precisou pagar todo o tratamento do próprio bolso, por não estar inscrito no seguro social.

Segundo a Agência de Serviços de Imigração do Japão, 38.321 estrangeiros desapareceram dos locais de estágio técnico nos cinco anos até 2024, muitos por causa de ambientes de trabalho ruins.

Em abril do próximo ano, o sistema de estágio técnico será substituído pelo novo sistema de emprego para formação, mas parte das restrições para troca de trabalho continuará, mantendo preocupações sobre novas fugas.

Retorno ao Vietnã e reflexão sobre o sistema

Zun se apresentou à imigração quando sua filha mais velha, hoje com 26 anos, se casou. Em junho deste ano, ele voltou ao Vietnã, onde descansa e reflete sobre os anos vividos no Japão.

Ele reconhece que violou as regras japonesas e afirma saber que fez algo errado. Ao mesmo tempo, diz desejar que a sociedade também olhe para os motivos que levam estrangeiros ao trabalho ilegal: dívidas, violência, falta de alternativas e a necessidade de continuar enviando dinheiro à família.

Depois de fugir do estágio técnico em estado de grande pressão psicológica, Zun continuou trabalhando no Japão porque sentia que não podia abandonar a família. Anos depois, ele ainda se pergunta o que deveria ter feito e admite que não encontrou uma resposta.

FONTE: PORTAL MIE

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