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Dívida pública em alta: mercado pede corte de gastos, economistas apontam juros

Enquanto ala ortodoxa vê risco fiscal, especialistas ouvidos pela Agência Brasil contestam a receita e apontam a taxa real de 8,45% como origem do problema

O endividamento público brasileiro saltou de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022 para cerca de 82,9% do PIB em agosto de 2026. Para o mercado financeiro e para economistas classificados como liberais ou ortodoxos, esse é o maior problema do próximo governo e ameaça a economia do país. Já economistas heterodoxos ou desenvolvimentistas rejeitam a receita do corte de gastos e apontam os juros altos como a verdadeira origem do desequilíbrio. Em reportagem publicada nesta quarta-feira (28), a Agência Brasil ouviu especialistas que contestam a tese dominante no noticiário econômico. A revista Forbes, especializada em finanças e sediada nos Estados Unidos, chegou a sugerir corte de até R$ 450 bilhões para estabilizar a dívida, com base em estudos do Instituto Fiscal Independente (IFI), ligado ao Senado. Durante a campanha presidencial, a imprensa atribuiu ao candidato Flávio Bolsonaro (PL) a promessa de um corte menor, de R$ 250 bilhões. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reagiu e acusou o adversário de preparar um “tesouraço” nos benefícios sociais.

Professora do Instituto de Economia da Unicamp, Simone Deos afirma que não há risco de calote nem de explosão da inflação. Segundo ela, a dívida pública é emitida em reais, e não em moeda estrangeira. Nenhum país teria deixado de honrar sua dívida interna por falta de recursos, lembra a pesquisadora, que atua no Centro de Estudos de Relações Econômicas Internacionais (CERI). O professor Fernando Henrique Lemos Rodrigues, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), segue a mesma linha. Em entrevista, ele avalia que o endividamento está dentro de parâmetros internacionais aceitáveis diante da complexidade do país. Também critica a comparação do Estado com uma família, recorrente no noticiário econômico. “Não estamos falando de uma dona de casa, nem de uma dona de padaria”, disse, ao lembrar que o país tem capacidade de arrecadar, de alongar o endividamento e de obter receitas das estatais. Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2024 mostram que Japão (236% do PIB), Estados Unidos (120%), Reino Unido (101%), Itália (135%), Canadá (110%) e Índia (81,2%) convivem com dívidas maiores ou semelhantes.

Para Simone Deos, o problema não é o estoque da dívida em si, mas a fatia crescente do orçamento transferida a rentistas pelo pagamento de juros. Com taxa real de 8,45%, a maior do mundo segundo a consultoria Moneyou, o Brasil gastou R$ 1,1 trilhão em juros nos últimos 12 meses, o equivalente a 8,86% do PIB, conforme cálculos do Banco Central. Ao longo de 2026, os juros nominais responderam pelo avanço de 4,2 pontos percentuais na relação dívida/PIB. Fernando Henrique Rodrigues chama de “chantagem” a pressão do mercado por redução de gastos. Como o governo dificilmente faria o ajuste pedido sem cortar direitos sociais, a cobrança serviria para justificar a manutenção dos juros elevados, argumenta. Ele lembra que cerca de 90% da rentabilidade de um fundo de aplicação financeira vem da dívida pública. Já o Banco Central sustenta que os juros altos respondem a pressões inflacionárias e aos déficits fiscais primários. Gastos primários acima da arrecadação pressionariam os preços, afirma a autoridade monetária.

Na avaliação de Simone Deos, é preciso mudar a cartilha do Banco Central para que ele aja de outra forma. Com ação coordenada no câmbio e uso das reservas de US$ 350 bilhões, diz, seria possível reduzir juros e estabilizar a dívida. Ela defende, porém, que o debate sobre a qualidade do gasto público não pode sacrificar políticas sociais. Defensor do fortalecimento do orçamento social e dos investimentos em estatais, Fernando Rodrigues pondera que o gasto público gera renda, emprego e novos investimentos e retorna na forma de arrecadação. As declarações foram dadas à Agência Brasil.

Fonte: Agência Brasil

Imagem: Gerada pelo site através de I.A.

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