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Proibição das bets traz alívio a vítimas após perdas de R$ 62,5 bilhões

Na última sexta-feira (25), o governo proibiu as operações das empresas de apostas on-line, as bets, em decisão tratada como resposta a um problema de saúde pública. Kaio*, de 42 anos, definiu o sentimento ao ouvir a notícia como “um grande alívio”: ele tenta recomeçar a vida depois de perder o carro, a casa e o emprego por causa das dívidas de jogo. Hoje, mora sozinho em um dormitório no interior de Goiás, onde dorme no chão, e se afastou da família por temer agiotas. Nos últimos seis anos, o vício virou sua vida pelo avesso. Tratamento em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) começou neste ano, com grupos terapêuticos, consultas médicas e três remédios por dia.

Por meio da Medida Provisória 1394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo revogou o capítulo 5 da Lei 13.756, de dezembro de 2018, aprovada no último mês do governo Michel Temer. Regulamentadas apenas em dezembro de 2023, as bets funcionaram por pelo menos cinco anos praticamente sem regras. Só com a regulamentação surgiram exigências como avisos de desestímulo ao jogo e advertências sobre os malefícios.

Perdas bilionárias

Famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets apenas no ano passado, segundo reportagem da Agência Brasil com base no Boletim Fiscal dos Estados, do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz). Tal montante equivale a uma média de R$ 4,7 bilhões por mês, de outubro de 2024 a março de 2026, e representa 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias. No mesmo período, as plataformas movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações via Pix.

Vulneráveis na mira

Pessoas em situação de vulnerabilidade formam o grupo mais suscetível ao vício em jogos, explica a psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo. De acordo com a médica, os apostadores foram alvo de publicidade enganosa que vendia o jogo como complemento de renda. “São pessoas que querem retornos rápidos induzidas a acreditar que podem ter isso com as bets. Isso se tornou realmente muito perigoso”, afirma.

Jovens também entraram na mira. Um em cada cinco alunos (20,4%) dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio disse ter apostado on-line no último ano, aponta levantamento da Equidade.info, encomendado pela Frente Parlamentar Mista da Educação. Foram ouvidos 1.912 estudantes de 191 escolas de todo o país. Dados de maior impacto mostram que as apostas começam cedo: aos 11 anos, 9,5% dos estudantes dessa faixa etária já haviam apostado.

Para a psicóloga Mariana Kehl, da Sociedade Brasileira de Psicologia, o cérebro adolescente ainda está em construção: o núcleo ligado ao prazer e à dopamina funciona em ritmo acelerado, enquanto as regiões que controlam impulsos e avaliam riscos só amadurecem aos 20 e poucos anos. “O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte”, diz a especialista.

Riscos à vida

Profissionais de saúde constataram sinais de desesperança, sensação de estar sem saída, afastamento das pessoas, aumento do uso de álcool e mudanças importantes de comportamento entre apostadores de todas as faixas etárias. Katia Branco defende que falas sobre morte ou sobre não querer mais viver sejam motivo de atenção e procura de ajuda. “Com manejo adequado, podemos reduzir o risco e tentar ajudar os pacientes”, afirma a psiquiatra.

Segundo o neurocirurgião Orlando Maia, pessoas com dependência veem a aposta como parte do dia a dia, na busca por um mecanismo de recompensa, e raramente reconhecem o problema sozinhas — precisam do apoio de familiares e amigos. No Distrito Federal, a psicóloga Claudia Feres, que atua em um Caps, relata casos graves: “Chegam para nós pessoas que tiveram pensamentos e fizeram, por exemplo, tentativa de autoextermínio”. Para ela, trata-se de um pedido de socorro desesperado, como se a pessoa falasse que precisa se ausentar da vida naquele momento.

Cassino no bolso

Com acesso fácil e disponibilidade praticamente 24 horas por dia, as plataformas agravaram o quadro. “É um cassino dentro do seu bolso”, resumiu Luiz Carlos*, 71 anos, integrante do Jogadores Anônimos, em entrevista à Rádio Nacional. Segundo ele, na sua época era preciso sair de casa para jogar — hoje, não.

Resposta do poder público

Diante do aumento dos problemas de saúde ligados ao vício, o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou, em agosto, o número de teleatendimentos mensais a pessoas com dificuldades relacionadas às apostas on-line. Com a proibição, o Ministério da Saúde anunciou que aumentará os esforços para contatar apostadores contumazes, oferecendo acompanhamento e tratamento nos casos necessários. Segundo o ministro Alexandre Padilha, haverá políticas de busca ativa a partir de dados compartilhados pelos ministérios da Fazenda e da Segurança e pela Receita Federal.

*Nomes fictícios a pedido dos entrevistados

Fonte: Agência Brasil

Imagem: © Tomaz Silva/Agência Brasil

Um comentário sobre “Proibição das bets traz alívio a vítimas após perdas de R$ 62,5 bilhões”

  • Kkkkkkkkkkkkkkkkk por*a nenhuma, isso é só cortina de fumaça do desgoverno.

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